Apostas online movimentaram bilhões de reais e passaram a preocupar autoridades e profissionais de saúde diante do avanço da dependência, especialmente entre jovens.
O crescimento das apostas online no Brasil deixou consequências que vão além das perdas financeiras. O avanço das chamadas bets passou a ser associado por especialistas e autoridades a casos de endividamento, problemas de saúde mental e comportamentos compulsivos.
Um levantamento citado pela Agência Brasil aponta que as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões em 2025 com apostas. O cálculo considera a diferença entre os valores colocados nos jogos e aquilo que retornou aos apostadores na forma de prêmios.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho do mercado. Entre outubro de 2024 e março de 2026, as plataformas movimentaram aproximadamente R$ 351 bilhões em transações realizadas por Pix. As perdas das famílias representaram 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta no período analisado.
Dependência pode provocar perdas pessoais e financeiras
Os efeitos da dependência podem atingir diferentes áreas da vida dos apostadores. Um dos relatos apresentados na reportagem é o de um homem identificado pelo nome fictício de Kaio, de 42 anos.
Depois de anos envolvido com apostas, ele perdeu bens, emprego e acumulou dívidas. Atualmente, vive sozinho em uma cidade do interior de Goiás e procurou atendimento em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde passou a participar de atividades terapêuticas e consultas médicas.
O caso, segundo especialistas ouvidos na reportagem, representa uma realidade enfrentada por pessoas que desenvolvem comportamento compulsivo relacionado aos jogos.
Regulamentação veio anos depois da autorização
As apostas esportivas foram autorizadas no Brasil em 2018, durante o governo de Michel Temer. Entretanto, a regulamentação do setor só ocorreu em dezembro de 2023.
Durante esse intervalo, as plataformas funcionaram por anos sem o conjunto de regras que posteriormente passou a estabelecer exigências para operadores e mecanismos de proteção aos usuários.
Entre as medidas adotadas posteriormente estavam alertas destinados a desestimular o jogo e advertências sobre possíveis consequências das apostas.
Pessoas em situação de vulnerabilidade estão entre as mais expostas
A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, destaca a maior vulnerabilidade de determinados grupos diante da publicidade relacionada às apostas.
Segundo a especialista, anúncios ajudaram a disseminar a ideia de que as bets poderiam funcionar como uma alternativa para aumentar a renda ou obter dinheiro rapidamente.
Essa percepção pode ser especialmente problemática para pessoas que enfrentam dificuldades financeiras e procuram soluções imediatas para melhorar sua situação econômica.
Apostas também chegaram aos adolescentes
A preocupação não se limita à população adulta. Uma pesquisa realizada com 1.912 estudantes de 191 escolas brasileiras apontou que 20,4% dos alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio disseram ter feito apostas online no último ano.
O levantamento também identificou relatos de apostas entre estudantes a partir dos 11 anos. Nessa faixa etária, 9,5% dos entrevistados afirmaram já ter apostado.
Para a psicóloga Mariana Kehl, integrante da Sociedade Brasileira de Psicologia, os adolescentes podem apresentar maior vulnerabilidade aos estímulos relacionados às apostas devido ao processo de desenvolvimento cerebral.
Segundo especialistas citados na reportagem, os mecanismos relacionados à recompensa e ao controle dos impulsos ainda estão em processo de amadurecimento durante a adolescência.
Saúde mental entra no centro da preocupação
Além do impacto financeiro, profissionais de saúde relatam mudanças no comportamento de pessoas que desenvolveram dependência das apostas.
Entre os sinais observados estão ansiedade intensa, desesperança, isolamento, aumento do consumo de álcool e alterações significativas de comportamento.
Casos mais graves podem envolver pensamentos relacionados à morte. Por isso, especialistas defendem que sinais de sofrimento emocional sejam levados a sério e recebam acompanhamento profissional.
A recomendação é que familiares e amigos estejam atentos às mudanças de comportamento e procurem ajuda quando perceberem que a pessoa perdeu o controle sobre as apostas.
Bets funcionavam como um cassino no celular
Uma das características que ampliaram a exposição aos jogos foi a facilidade de acesso. Diferentemente dos modelos tradicionais de apostas, as plataformas digitais podiam ser utilizadas praticamente a qualquer hora e de qualquer lugar.
Para Luiz Carlos*, de 71 anos, integrante do Jogadores Anônimos, essa diferença alterou significativamente a relação das pessoas com o jogo. Antes, segundo seu relato, era necessário sair de casa para apostar. Com os aplicativos, o acesso passou a estar permanentemente disponível no celular.
A facilidade de acesso também aumentou a preocupação dos profissionais de saúde com pessoas que já apresentavam comportamento compulsivo.
SUS amplia atendimento para dependentes de apostas
Diante do crescimento dos problemas relacionados às apostas, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou a oferta de teleatendimentos destinados a pessoas que enfrentam dificuldades relacionadas ao jogo.
A medida faz parte de uma série de ações voltadas ao atendimento de pessoas que desenvolveram dependência em apostas online.
Após o anúncio da proibição das bets, o Ministério da Saúde também informou que pretende ampliar ações para localizar apostadores considerados de uso recorrente e oferecer acompanhamento nos casos em que houver necessidade.
A estratégia prevê o uso de informações compartilhadas por órgãos públicos para identificar pessoas que possam precisar de atendimento e encaminhá-las aos serviços de saúde.
Um problema que ultrapassa o dinheiro perdido
Os dados mostram que o impacto das apostas não pode ser analisado apenas pelo volume financeiro movimentado pelas plataformas. Para especialistas, os casos de dependência podem resultar em consequências que atingem as relações familiares, o trabalho, o patrimônio e a saúde emocional.
A experiência de apostadores que procuraram atendimento também reforça a importância de identificar sinais de comportamento compulsivo e buscar ajuda especializada.
Mais do que o dinheiro perdido nas apostas, o desafio passou a envolver os efeitos sociais e de saúde provocados pela dependência em jogos online.
*Os nomes de alguns entrevistados foram alterados a pedido dos próprios entrevistados.

