Saúde mental ganha discussões e Câmara cobra ações efetivas do Executivo

A Câmara de Vereadores debate a saúde mental e cobra do Executivo ações efetivas para fortalecer políticas públicas de prevenção e atendimento à população.
Saúde
Foto: divulgação

A saúde mental foi o principal assunto da pauta da Câmara de Jaraguá do Sul, na sessão de terça-feira, 2 de setembro. Em atenção à requerimento dos vereadores Charles Salvador e Osmair Gadotti, o médico clínico geral com atuação em psiquiatria do Hospital Jaraguá, Dr. Dedi Alves Ferreira Neto, usou a tribuna para descrever a situação do acolhimento a pessoas em sofrimento psíquico no município e defender, com dados e exemplos, a implantação urgente de um Centro de Atenção Psicossocial tipo III (CAPS III). Segundo ele, a realidade atual — marcada por superlotação, carência de leitos e fluxo assistencial fragmentado — já não dá conta do aumento da demanda e coloca pacientes e famílias em espera prolongada e em condições inadequadas.

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“Hoje eu atendo quando é necessário no Hospital Jaraguá. Não somos um hospital de referência psiquiátrica, mas, devido ao aumento de demanda, esses pacientes ficam lá”, informou. O médico, que já trabalhou em CAPS e também atua em projeto semelhante no Hospital Santo Antônio, em Guaramirim, afirmou que a discussão não é exclusiva de Jaraguá do Sul. “O problema de saúde mental é global. A Organização Mundial da Saúde projeta que, nas próximas duas décadas, uma em cada duas pessoas terá algum transtorno psiquiátrico ao longo da vida”, disse, ressaltando o impacto econômico e social do transtorno depressivo e de outras condições mentais graves e persistentes.

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PREOCUPAÇÃO – Dedi apresentou números da rotina hospitalar regional. “De internação psiquiátrica, que fica aguardando vaga via SISREG, em Jaraguá do Sul dá, em média, de 25 a 30 pacientes por mês, contando os dois hospitais. Se incluir Guaramirim, chegamos a 30 a 40 apenas nesses dois municípios”, relatou. Conforme o médico, de 70% a 80% dessas pessoas chegam após tentativa de suicídio, ou com ideação suicida grave, necessitando de vigilância contínua.


A espera por vaga psiquiátrica dura, de sete a quinze dias — período em que o paciente permanece no pronto-socorro, muitas vezes numa cadeira, ou usando um leito que seria destinado a casos clínicos gerais. “Não tem leito. A verdade é essa”, resumiu.

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Criação de um CAPS III 24 horas e formação de consórcio regional é sugerido

O médico Dedi Ferreira Neto citou também que, para além da falta de vagas, o desenho de rede é outro entrave. Na visão do médico, a atenção primária está sobrecarregada e tende a acolher casos leves; os CAPS existentes, por sua vez, já operam no limite e, por isso, concentram os quadros mais graves. “O paciente moderado, que precisa de internação breve ou cuidado intensivo por alguns dias, fica no ‘buraco’ do sistema”, afirmou.


Ao detalhar a proposta, Dedi destacou que o CAPS III funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, com leitos para internações de curta duração e uma rotina terapêutica humanizada de oficinas e acompanhamento multiprofissional. “O paciente, durante o dia, passa pelas oficinas; é uma coisa humanizada. E ele tem leitos e permite internações de curta duração justamente para esses pacientes”, explicou.

ilustrativa

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A implantação – frisou -, tem respaldo normativo e financiamento federal, mas esbarra, com frequência, na capacidade de custeio de municípios menores. Por isso, sugeriu que Jaraguá do Sul lidere um arranjo em consórcio regional, para sustentar a equipe necessária, que é o item mais caro do modelo. “O caro não é a construção; é a equipe. Casos graves não se atendem em 15 minutos. Eu preciso observar, conversar, acompanhar. Sem uma equipe com folga, vira um serviço sucateado”.


Segundo o médico, a região da Amvali somaria cerca de 360 mil habitantes, o que ampliaria a viabilidade financeira e assistencial. A centralização logística em uma mesma estrutura física, com equipes e portas de entrada separadas por município, permitiria padronizar fluxos (por exemplo, pós-desintoxicação de tentativas de suicídio por intoxicação exógena) e reduzir o “empurra-empurra” entre serviços.


“Com o tempo, um CAPS III gera dados epidemiológicos locais — quem adoece, onde, por quê — e isso orienta prevenção e uso mais inteligente dos recursos”, acrescentou, lamentando a ausência de informações básicas hoje, como a prevalência de depressão grave que já esgotou o arsenal terapêutico do SUS no município.

Custeio do serviço é o principal obstáculo, mas assunto precisa avançar

As informações repassadas pelo médico convidado provocaram indignações entre os vereadores e a necessidade de tomada imediata de decisões por parte do Executivo, como registraram os vereadores Almeida, Gadotti, Natália e Pedri. A implantação do CAPS III é fundamental.


Para o vereador Almeida “Jaraguá do Sul está apta a cadastrar o projeto no Governo Federal e captar recurso. O problema nós conhecemos; a solução que ameniza já está desenhada. O que falta é vontade política”, afirmou. “A implementação de um CAPS III para acolhimento pode ser a saída. O Legislativo fará o que estiver ao alcance, mas a etapa é do Executivo”, emendou Natália.

divulgação


Osmair Gadotti defendeu o consórcio regional como caminho “mais viável” para a solução. Segundo o vereador, Jaraguá do Sul hoje já absorve pacientes de toda a região por ser referência hospitalar, de modo que a divisão de responsabilidades precisa ser formalizada e financiada de forma proporcional.


Pedri comentou sobre a invisibilidade do sofrimento mental e a necessidade de decisões orçamentárias concretas. “Esse debate só torna claro o quanto somos impotentes. A saúde mental não recebe o devido valor. Precisamos de respostas efetivas”.


Os vereadores chegaram ao consenso de que o assunto seja tratado pelo Executivo com prioridade máxima — seja para a elaboração de um projeto técnico de implantação do CAPS III, seja para a abertura de diálogo com a Amvali e com o Ministério da Saúde visando financiamento e consórcio regional.

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