Santa Catarina está preparada para o El Niño?

Santa Catarina está preparada para o El Niño? Com as previsões meteorológicas acendendo o sinal de alerta para a chegada de um novo e severo fenômeno El Niño em 2026,…
Santa Catarina está preparada para o El Niño?
Foto: Santa Catarina está preparada para 2026? Foto: Arquivo Pessoal - Coronel Armando

Santa Catarina está preparada para o El Niño?

Com as previsões meteorológicas acendendo o sinal de alerta para a chegada de um novo e severo fenômeno El Niño em 2026, a preocupação com a segurança e a infraestrutura de Santa Catarina voltou ao centro dos debates públicos. Para entender se o nosso estado está realmente preparado para enfrentar o volume de chuvas que se projeta, o Portal Observa+ foi conversar com quem esteve na linha de frente do gerenciamento de crises no território catarinense: o Coronel Armando.

Secretário da Defesa Civil do Estado até 2024, o Coronel Armando liderou a pasta durante o histórico e desafiador ano de 2023 — período em que Santa Catarina enfrentou o maior volume de chuvas simultâneas de sua história recente e viu, de forma inédita, as três grandes barragens do Vale do Itajaí verterem ao mesmo tempo. Ninguém melhor do que ele, que conhece por dentro as engrenagens, os gargalos burocráticos e o real estado de manutenção das nossas estruturas de contenção, para fazer um diagnóstico realista e transparente sobre os riscos e os avanços que nos aguardam nos próximos meses.

Nas linhas a seguir, você confere os principais pontos trazidos pelo ex-secretário sobre o que mudou de lá para cá e onde o estado ainda precisa evoluir urgentemente para salvar vidas. analisando a capacidade de resposta das nossas estruturas e o papel de órgãos essenciais como a Celesc e a Casan.

O El Niño em Santa Catarina e o histórico de 2023

Em 2023, o estado enfrentou o período com a maior quantidade de chuvas simultâneas já registrada. Tivemos 260 cidades das 295 do estado com situação de emergência ou calamidade pública. O mês de outubro e novembro daquele ano foram especialmente críticos para o Vale do Itajaí, quando ocorreu um fato inédito: as três grandes barragens da região verteram ao mesmo tempo.

“Naquele período, as três barragens estavam com problemas de comportas. Elas verteram, mas não estavam 100% modernizadas ainda, necessitavam de manutenção. Não existia na Defesa Civil, equipe de manutenção especializada e preparada durante o período das chuvas foi estabelecida parceria com a Celesc que passou a apoiar a manutenção das barragens e implementada a parceria com o Ciram Epagri nas previsões climáticas e meteorológicas. O efetivo da Defesa Civil era pequeno e insuficiente para atender todas as demandas, incluindo aí  o acompanhamento de contratos e o andamento dos projetos de obras do Projeto JICA”, relembra o coronel Armando.

Os processos licitatórios e a burocracia do setor público, que costumam ser lentos, impediram que as manutenções estivessem concluídas a tempo. O caso mais grave era o da Barragem José Boiteux, que sofria com a falta de manutenção desde 2014, após ter sua sala de comando e controle destruída por indígenas Xokleng La klano da reserva  insatisfeitos com a construção da barragem e o não cumprimento pelos governos estaduais  e o federal das obras de compensação prometidas para a região.  A partir daí, a operação de abertura e fechamento das comportas passou a depender de equipamentos hidráulicos externos e testes improvisados e a manutenção dos fluidos dos equipamentos de abertura das comportas que deixaram de ser  realizados. Isso limitava o controle da abertura e fechamento das comportas e a regulação do fluxo de água quando ocorriam grandes chuvas.

Santa Catarina está preparada para o El Niño?
Santa Catarina está preparada para 2026? Foto: Arquivo Pessoal – Coronel Armando

Santa Catarina está preparada para 2026?

O coronel Armando aponta que os trabalhos iniciados em sua gestão como a colaboração entre as secretarias do estado em períodos anteriores aos desastres avançaram, o diálogo com as lideranças indígenas e com o Ministério dos povos indígenas, além da distribuição de equipamentos para as prefeituras trouxeram melhorias significativas para as ações da Defesa Civil no estado Quanto a manutenção da infraestrutura de prevenção e contenção de aguas no estado foi dada continuidade a manutenção dos radares de Lontras e Araranguá e inaugurado em sua gestão um novo em Joinville e dada continuidade ao planejamento de instalação de um radar meteorológico em Florianópolis. Em relação à situação das barragens, além da limpeza de áreas e desassoreamento de rios próximos as barragens houve evolução na manutenção destas.

  • Barragem de Ituporanga (Barragem Sul): A recuperação foi concluída e, atualmente, a estrutura conta com controle remoto automatizado diretamente da sede da Defesa Civil em Florianópolis, dispensando a necessidade de deslocamento de equipes para a operação local.
  • Barragem de Taió (Barragem Oeste): Passa por processos de modernização semelhantes para garantir maior suporte e foi sanado o problema de vazamento.
  • Barragem José Boiteux (Barragem Norte): Ainda se encontra em condições parecidas com as de anos anteriores, com obras recém-iniciadas e uma das comportas travada em posição aberta, o que exige atenção redobrada. Prosseguem as tratativas com a população indígena e a realização das obras de compensação.

O Projeto JICA e Novas Estruturas de Santa Catarina

Para além das reformas, estão em andamento os projetos da JICA (Agência de Cooperação Internacional do Japão), que preveem a construção de três novas barragens e três minibarragens, além de uma estrutura em Botuverá. No entanto, o coronel ressalta que as licitações enfrentam entraves e impasses em audiências públicas — como as resistências da população local em Braço do Trombududo devido ao impacto de inundação de áreas —, bem como na obtenção de licenças ambientais, indicando que a conclusão dessas obras ainda levará alguns anos e dependerá da captação de novos recursos pelo governo estadual.

Ações Preventivas realizadas em Santa Catarina e o Alerta pelo Celular

Diante da previsão de que o El Niño atual possa ser um dos maiores já registrados, a Defesa Civil de Santa Catarina antecipou os protocolos de prontidão. Os municípios têm focado em planos de contingência, mapeamento de áreas de risco e preparação de abrigos.

O trabalho preventivo envolve o desassoreamento de rios e a retirada de entulhos para otimizar o escoamento. Uma das principais inovações tecnológicas implantadas para 2026 é o sistema de alerta por geolocalização via celular. Em parceria com as operadoras de telefonia, o dispositivo dispara avisos sonoros e mensagens diretamente aos cidadãos que estão em zonas de risco iminente, permitindo que as pessoas tomem decisões seguras com antecedência.

O coronel reforça a importância de a população seguir rigorosamente as orientações. Em 2023, apesar dos severos danos econômicos, o volume de óbitos foi drasticamente reduzido graças aos alertas informativos. A maioria das perdas de vidas registradas ocorreu por imprudência, quando indivíduos tentaram atravessar cursos d’água a pé, de carro, moto, trator ou jet ski, contrariando as recomendações oficiais.

Acompanhe em tempo real: monitoramento de chuvas, tempestades e alertas climáticos em todas as regiões do Brasil
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Integração de Forças e Serviços Essenciais

A resposta a desastres ecológicos e climáticos não se restringe à Defesa Civil. O restabelecimento da normalidade depende de uma engrenagem multissetorial que envolve Assistência Social, Saúde, segurança e Infraestrutura.

  • Celesc e Casan: O ex-secretário destaca o papel vital das companhias de energia e saneamento, que mantêm equipes de plantão quase 24 horas por dia para garantir o rápido restabelecimento da luz e da água após as tempestades.
  • Forças de Salvamento e Segurança: A atuação conjunta do Corpo de Bombeiros (militares, voluntários e comunitários), Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Técnica e Forças Armadas assegura o socorro e salvamento,abertura de abrigos, isolamento de áreas, balizamento de trânsito e o suporte logístico necessário ao restabelecimento dos serviços essenciais.
  • Apoio da Imprensa: A imprensa ao transmitir os boletins de alerta da Defesa Civil e colaborar de forma responsável na divulgação das orientações, sem buscar o alarde tem papel fundamental na proteção dos catarinenses.

A eficiência catarinense, reconhecida como uma das melhores estruturas de Defesa Civil do país baseia-se justamente na integração prévia dessas instituições por meio do GRAC (Grupo de Resposta a Ações Coordenadas), no trabalho na prevenção e educativo com os diversos cursos ministrados pela Secretária de Proteção e Defesa Civil (Programa Defesa Civil na Escola). Este trabalho se intensifica no momento dos desastres onde a interação e a coordenação dessas estruturas se faz mais importante.   

Outra ferramenta importante está no campo jurídico, a Lei do Apoio Mútuo, que permite que municípios vizinhos transfiram maquinários, tratores e insumos entre si para acelerar a reconstrução das cidades afetadas.

O Desafio da Continuidade Política

Ao final de sua análise, o coronel Armando faz uma crítica à rotatividade na liderança da Secretaria da Defesa Civil, defendendo que a pasta deveria ser preservada de acomodações políticas, por ter sua finalidade técnica.

“Acho que não deveria ter tanta troca do secretário da Defesa Civil. Ali é uma função de salvar vidas, não deve ser trocada de forma  política. O secretário precisa dar continuidade aos planejamentos e a rotatividade prejudica devido ao tempo gasto na compreensão da missão” Neste Governo em 04 anos tivemos 04 secretários de Defesa Civil e no momento o atual secretário acumula a função com o comando do Corpo de Bombeiros Militares em um ano em que se comemora o centenário desta instituição tão importante para o estado, mas em um ano que se prevê um dos mais fortes  El Niño já registrados, argumenta o Coronel Armando. 

Política

O ex-secretário defende também a necessidade de realização de concursos públicos para o quadro próprio da Defesa Civil, além da obrigatoriedade da criação de carreiras técnicas permanentes para agentes de Defesa Civil nos municípios. A ausência de equipes fixas e especializadas nas prefeituras retarda a velocidade das respostas locais, tornando as cidades mais vulneráveis às intempéries climáticas.

Ficou claro que o estado evoluiu em tecnologia de monitoramento e alertas, mas a manutenção contínua das velhas estruturas e a velocidade das obras de macroengenharia continuam sendo o nosso calcanhar de Aquiles para os próximos meses.

Para acompanhar mais atualizações sobre o monitoramento do clima e a infraestrutura da nossa região, continue acessando o Portal Observa+.

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