(Rio Cerro e Aurora: Um toque de lar no coração de Jaraguá do Sul)
Ademir Pfiffer – historiador, exclusiva ao Jornal do Vale do Itapocu e Portal Observa+
A Chegada e a Semente Germânica
A história da região que hoje abriga os territórios Rio Cerro e Aurora, em Jaraguá do Sul, é uma das mais ricas manifestações da colonização germânica no Sul do Brasil, permeada por indicadores econômicos e culturais que preenchem de orgulho a memória catarinense. A colônia, inicialmente denominada “Rio Serro” ou “Cerro” em razão da topografia da região, foi oficialmente demarcada em 29 de outubro de 1900, com uma área de 268.264 m², pela equipe técnica do governador Felipe Schmidt. Antes mesmo da oficialização, já em 1899, o local era habitado, e a criação da colônia era atribuída inicialmente ao nome de Aurora. Os povos que deram o tom cultural e étnico à região foram majoritariamente os alemães e pomeranos, que se estabeleceram ali por volta de 1899, formando importantes grupos étnicos que, posteriormente, levaram à constituição do município de Jaraguá do Sul.

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O Florescer da Comunidade – Estabelecimento e Estrutura Social
O desenvolvimento da colônia foi rápido e progressivo, impulsionado pelo trabalho dos primeiros proprietários e colonos, cujos registros imortalizam nomes como Walter Marquardt, Wilhelm Weege, Hermann Weege, Carl Weege, Henrique, Sell, Augusto Wolkmann, Max Blumental, Felippe Frenzel, Albert Rahn, Alexandre Karsten, Caetano Deeke, Richard Weege, Gustavo Weege e Julio Hudler, entre outros.
A vida da colônia foi solidamente estruturada a partir da fé e da educação. O pilar religioso evangélico-luterano foi estabelecido com a fundação do primeiro templo em 9 de maio de 1899, marcado pelo culto inaugural oficiado pelo pastor Heinrich Runte. Concomitantemente à igreja, iniciou as atividades do ritual de sepultamento, com a instalação do Cemitério Luterano.
Em 1931, a diretoria da comunidade organizou a construção de um novo templo, sendo o construtor Leopoldo Mahnke, erguido em terreno doado pelo casal Wilhelm Weege e Berta Karsten Weege.
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O pilar educacional também teve início em 1899 com a criação da Deutsche Schule Alemã Rio “Serro”, sob a regência do professor Albert Rahn. Em 1963, quando foi inaugurado o novo prédio escolar construído pelo governo do estado, esta escola, já transformada em instituição pública, um marco ocorrido durante o período de nacionalização (1939 – 1945), foi renomeada para Escolas Reunidas “João Romário Moreira”, em homenagem ao professor e inspetor geral de ensino, que era vereador em Guaramirim.
Localizada num terreno próximo a Sociedade Alvorada, a entidade associativista e escolar (schulverein) de Rio Cerro I, começavam as atividades em 1908. Era mantida por uma sociedade particular, formada por membros da comunidade. Em 1943, a escola passou a funcionar onde está localizada atualmente, em Ribeirão Alma, no Rio Cerro I. Mais tarde a escola passou para denominação de Escola Reunida Ricieri Marcatto, em maio de 1965.
Em 1993 a escola foi municipalizada e foram construídas novas instalações, ao lado da antiga escola, que começou a funcionar no início do ano letivo de 1994.
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Economia, Transportes e Lazer
O progresso econômico era notório através da ampliação de propriedades rurais, da crescente criação de laticínios e do forte comércio. A marca Choco Leite teve suas origens em 1913, com a instalação de uma casa comercial no território de Rio Cerro. Anos depois, o empreendedor do ramo de laticínios, Gustavo Gumz, desenvolveu a fórmula do achocolatado, que, após testes, foi oficialmente lançado em 1959. Outras iniciativas comerciais relevantes incluíam o comércio de Johann Möller (imigrante alemão), Ricardo Roeder e a Casa de Comércio de Felippe Frenzel.
A comunicação e o transporte foram vitais. A criação da Linha Postal em 9 de agosto de 1919 ligou a colônia ao centro, sendo complementada pelo transporte rodoviário: na década de 1920, o ônibus do Sr. Adolfo Antônio Emmendörfer fazia a linha Jaraguá – Pomerode – Blumenau com uma frequência de um dia e meio. A importância regional foi sublinhada pela visita de ilustres personalidades na década de 20, incluindo o presidente Washington Luiz (1925) e o Ministro da Viação, Victor Konder (catarinense).
O lazer e a cultura social orbitavam em torno das sociedades de tiro, tendo o tiro-rei como principal elemento de difusão. Destacavam-se a Sociedade Atiradores, fundada em 01 de janeiro de 1916, sendo registrado os estatutos, em 13 de agosto de 1938 e a Sociedade Atiradores Gemütlichkeit, fundada em 1922. A II Guerra Mundial (1939 – 1945) impactou a região, culminando na criação da Sociedade Recreativa Aurora em 1943, que se tornou a herdeira das manifestações folclóricas. No pós-guerra, a comunidade teuto-brasileira herdeira da tradição germânica, ligada aos salões Gumz e Roeder, fundou, respectivamente, a Sociedade Alvorada (1º de janeiro); inicialmente com o nome de Aurora, e a Sociedade Aliança (18 de maio), perpetuando os espaços de encontro e celebração.

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A integração cultural foi selada em 1958, quando a Banda Lyra Aurora realizou sua primeira apresentação na comunidade, atestando o forte laço da comunidade com a música germânica.

É nesses mesmos espaços, pilares da história do Rio Cerro, que a tradição encontra o presente. Em 29 de Outubro de 2025, a comunidade se reunirá na Sociedade Aliança para um evento de grande significado cultural: o lançamento do Filme/Documentário “A Saga do Embaixador”. O documentário destacará a trajetória de Ingo Penz, um cidadão nascido e criado neste território rural, Rio Cerro II, onde aprendeu desde cedo os valores da cultura e do patrimônio germânico e pomerano, tendo inclusive estudado na escola elementar da rede estadual da comunidade.
O projeto, uma iniciativa da Berg Bier Cervejaria e dos cineastas Ernoy Mattiello, Junior Padilha e Henry Ritter Kirst, revela a Oktoberfest sob a perspectiva de Penz, conectando a celebração à sua origem. O lançamento, marcado para as 19h, celebra ainda os “Rio Cerro-Zwei-125 Jahre” (125 anos de Rio Cerro II), reafirmando a relevância histórica do território como berço de tradições. Com apoio cultural da Sociedade Aliança e patrocínio da HK Kirst e Hotel Piratuba, este evento simboliza a vitalidade do legado teuto-brasileiro, mostrando que a história construída pelos imigrantes continua sendo contada e celebrada pelas novas gerações.

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Considerações Finais: O Legado e a Preservação Cultural
Em suma, a Colônia Rio Cerro/Aurora consolidou-se como um dos mais importantes centros de influência da cultura germânica em Jaraguá do Sul. Hoje, seus habitantes se dedicam à preservação não só dos valores e costumes de seus antepassados — como a língua alemã, danças folclóricas (Grünens Tall) e tradições —, mas também à manutenção de um legado de trabalho, fé e desenvolvimento comunitário. Rio Cerro e Aurora são, portanto, um retrato vivo e vibrante da história da colonização em Santa Catarina, que continua a encher de orgulho a história do nosso Estado.

Fonte Bibliográfica: Hemeroteca Catarinense (Pesquisas e documentos diversos). Livro do Historiador Emílio da Silva. Livro do Historiador Frei Aurélio Stulzer. Documentos e informações históricas da comunidade de Rio Cerro e Aurora. Cartaz do Filme/Documentário “A Saga do Embaixador” (2025).

Arquivo Público de Santa Catarina (APESC), Item APESC_F0782. Disponível em: https://acervo.arquivopublico.sc.gov.br/index.php/felipe-schmidt-1859-1930-3. Acesso em: 24 out. 2025. (Foto do governador Felipe Schmidt)
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