Reflexão histórica sobre os hinos de Jaraguá do Sul e da Bélgica (Namur) | Ademir Pfiffer- Historiador, para o Jornal do Vale do Itapocu/Portal Obsermais
PARTE 1
Introdução
Este documento apresenta uma releitura histórica comparativa entre duas localidades distintas, Jaraguá do Sul, no Brasil, e Namur, na Bélgica, com um foco particular na gênese de seus respectivos hinos e nos contextos históricos que moldaram suas identidades. A análise abordará a temporalidade, os atores sociais envolvidos e os fatos históricos que contextualizam a criação ou adoção desses símbolos nacionais e municipais. Embora Namur não possua um hino oficial próprio, utilizando o hino nacional belga, essa peculiaridade oferece uma oportunidade para explorar as diferenças e semelhanças nas narrativas históricas e na construção de identidades cívicas.
Contexto Histórico de Namur (Bélgica)
Namur, capital da Valônia, na Bélgica, possui uma história milenar, marcada por sua localização estratégica na confluência dos rios Sambre e Meuse. Essa posição geográfica a tornou um ponto crucial para o comércio e a defesa ao longo dos séculos, resultando na construção e expansão de sua imponente cidadela, que testemunha dois milênios de ocupação humana [1].
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Período Medieval e Moderno Inicial
Durante a Idade Média, Namur floresceu como um centro estratégico e militar, tornando-se a capital do Condado de Namur, parte do Sacro Império Romano Germânico. A cidade e seu condado foram governados por diversas casas nobres, como a Casa de Hainaut e a Casa de Luxemburgo, que contribuíram para sua proeminência regional [1].
No início do período moderno (séculos XVI-XVIII), Namur passou para o controle dos Habsburgos, inserindo-se em um cenário de constantes conflitos europeus. Os Sítios de Namur, durante a Guerra dos Nove Anos (1689-1697), evidenciam a relevância militar da cidade, que foi sitiada e retomada diversas vezes, com sua cidadela sendo aprimorada para resistir aos avanços da artilharia da época [1].
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Século XIX e a Independência Belga
O século XIX marcou a industrialização de Namur, com o desenvolvimento de indústrias como ferro e aço, vidro e papel, impulsionando um crescimento populacional significativo. A importância estratégica da cidade permaneceu, sendo novamente fortificada no final do século XIX e início do século XX com a construção de um anel de nove fortes de concreto [1].
A Bélgica, da qual Namur faz parte, conquistou sua independência em 1830, separando-se do Reino Unido dos Países Baixos. Este evento foi crucial para a formação da identidade nacional belga e para a adoção de seus símbolos. Em 1835, o burgomestre (prefeito) de Namur era Jean-Baptiste Brabant, que ocupou o cargo entre 1830 e 1838. O país era governado pelo Rei Leopoldo I, o primeiro monarca belga, que ascendeu ao trono em 21 de julho de 1831. O regime era uma monarquia constitucional parlamentar, estabelecida pela Constituição de 1831, que, embora limitasse o poder real, ainda concedia ao rei forte influência no executivo [2].
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Namur atualmente
Atualmente, Namur é uma cidade universitária vibrante, um centro administrativo e comercial, e um destino turístico que soube preservar seu patrimônio histórico enquanto se modernizava [1].
Contexto Histórico de Jaraguá do Sul (Brasil)
Jaraguá do Sul, localizada em Santa Catarina, Brasil, tem sua história enraizada no século XIX, com um processo de colonização que envolveu diversas etnias e um forte espírito empreendedor. A cidade se desenvolveu a partir das terras dotais da Princesa Isabel e do Conde D’Eu.
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Fundação e colonização
Em 1875, o engenheiro e coronel honorário do Exército Brasileiro, Emílio Carlos Jourdan, foi encarregado da medição e tombamento de terras no Vale do Itapocu e Rio Negro. Jourdan iniciou a colonização dos lotes com o auxílio de cerca de 60 trabalhadores, incluindo escravos, cultivando cana-de-açúcar e estabelecendo um engenho, serraria, olaria, entre outros. Este empreendimento, conhecido como Estabelecimento Jaraguá, estava situado entre os rios Itapocu e Jaraguá. A região pertencia inicialmente ao município de Paraty (atual Araquari) e foi anexada por Joinville em 1883. Diante das dificuldades, Jourdan desistiu do empreendimento em 1888 [3].
Com a Proclamação da República em 1889, as terras dotais passaram para o domínio da União e, em 1893, para a jurisdição dos Estados. A colonização continuou com a chegada de imigrantes húngaros, alemães e italianos, que foram cruciais para a agricultura, a nascente indústria e a organização social do município [3].
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Formação Administrativa e Emancipação
Jaraguá do Sul teve sua jurisdição alterada diversas vezes, pertencendo a Paraty (atual Araquari) e Joinville. Em 25 de agosto de 1895, foi criado como distrito de Joinville. O movimento pró-emancipação ganhou força por volta de 1930, e em 26 de março de 1934, Jaraguá foi desmembrado de Joinville, elevando-se à categoria de município. A solenidade de instalação ocorreu em 8 de abril de 1934. Em 31 de dezembro de 1943, o município passou a ser denominado Jaraguá do Sul para diferenciá-lo de outro município com o mesmo nome em Goiás [3].
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Desenvolvimento Econômico e Cultural
Atualmente, Jaraguá do Sul é a sétima maior economia de Santa Catarina e o terceiro núcleo industrial do estado, destacando-se nos setores metal-mecânico e de confecções. A cidade valoriza sua herança cultural, evidenciada por suas Associações Étnicas, Sociedades de Tiro, edificações históricas e eventos culturais como a Schützenfest [3].
A Criação do Hino da Bélgica: “La Brabançonne”
“La Brabançonne” é o hino nacional da Bélgica, e sua história está intrinsecamente ligada à Revolução Belga de 1830 e à subsequente independência do país. A autoria do hino é multifacetada, envolvendo diferentes indivíduos na letra e na música, além de ter passado por várias versões ao longo do tempo [2].
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Autores e Evolução
A melodia de “La Brabançonne” foi composta por François Van Campenhout (1779- 1848), um cantor de ópera, violinista e compositor. Ele criou a melodia em setembro de 1830, durante a Revolução Belga, baseando-se em uma ária de uma ópera francesa [2].
A letra original, em francês, foi escrita por Alexandre Dechet, mais conhecido pelo pseudônimo Jenneval (1801-1830). Jenneval era um ator francês que se juntou aos revolucionários belgas e escreveu a letra original em agosto de 1830. Essa versão inicial era mais inflamada e diretamente contra o domínio holandês. Tragicamente, Jenneval foi morto em combate poucos meses depois, em outubro de 1830 [2].
A letra original de Jenneval era considerada muito agressiva contra o Rei Guilherme I dos Países Baixos. Após a consolidação da independência belga e a coroação do Rei Leopoldo I, a letra foi considerada inadequada para um hino nacional. Por essa razão, em 1860, o então primeiro-ministro da Bélgica, Charles Rogier, reescreveu a letra.
Rogier suavizou os versos mais hostis e focou em temas como o patriotismo, a unidade e o lema nacional. É a versão de Charles Rogier que é cantada hoje como o hino oficial da Bélgica [2].
Em resumo: * Música: François Van Campenhout. * Letra Original: Jenneval (Alexandre Dechet). * Letra Oficial Atual: Charles Rogier, que adaptou a obra original.
É importante notar que Namur, como cidade, não possui um hino oficial próprio, utilizando o hino nacional belga, “La Brabançonne”, como seu símbolo musical cívico[2].
A Criação do Hino de Jaraguá do Sul
O Hino Oficial do Município de Jaraguá do Sul foi instituído pela Lei Municipal nº 564, sancionada em 1º de julho de 1975 [4]. A criação do hino foi resultado de um concurso promovido pelo Rotary Club, que buscou retratar os costumes e tradições locais [2].
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Autores e Reconhecimento
A melodia do hino foi composta por Alceste Berri (1925-2016). Ele compôs a melodia em 1970, após vencer o concurso juntamente com o autor da letra. Berri faleceu em 2016, aos 91 anos, sendo reconhecido por sua contribuição musical para a história do município [2].
A letra do hino foi escrita por Rodolfo Francisco Hufenüssler. Ele é oficialmente reconhecido, ao lado de Alceste Berri, como autor da letra do hino municipal.
Hufenüssler é um empresário influente em Jaraguá do Sul, com papel destacado em diversas instituições locais, como a Associação Empresarial de Jaraguá do Sul (ACIJS) e o Conselho administrativo de hospitais. Ele também foi um dos fundadores do Centro de Cultura Alemã em 1997 e participou ativamente do Rotary Club, recebendo diversas homenagens por sua atuação comunitária. Rodolfo integra o legado da família fundadora da empresa Duas Rodas Industrial, uma das principais multinacionais do setor de aromas e ingredientes do Brasil [2].
Em resumo: Música: Alceste Berri. Letra: Rodolfo Francisco Hufenüssler. Oficialização: Lei Municipal nº 564, de 1º de julho de 1975. (continua…)
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