O levantamento Iser/Quaest aponta diversidade dentro do segmento evangélico e mostra que influência religiosa na política ocorre cada vez mais fora dos templos
A participação dos evangélicos no debate político brasileiro continua sendo um dos temas relevantes para as eleições de 2026. Entretanto, uma nova pesquisa nacional indica que a relação entre fé e política é mais complexa do que a simples associação entre religião e preferência eleitoral.
A pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, realizado pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser), em parceria com a Quaest, aponta que grande parte dos fiéis não considera legítimo transformar igrejas em espaços de campanha política.
Segundo os dados, 83% dos entrevistados são contrários a que pastores ou padres indiquem candidatos aos fiéis. Outros 82% rejeitam debates políticos durante cultos e missas, enquanto 90% são contrários à realização de campanhas eleitorais dentro de templos religiosos.
A pesquisa foi realizada presencialmente com 15 mil pessoas em 412 municípios, incluindo as 27 capitais brasileiras. O trabalho de campo ocorreu entre janeiro e fevereiro de 2026. O estudo tem margem de erro de 0,8 ponto percentual e nível de confiança de 95%, segundo o Iser.
Religião continua influenciando a vida política
Apesar da rejeição ao uso direto dos templos para campanhas, os dados não apontam para um afastamento entre religião e política.
A pesquisadora Lívia Reis, do Iser, avalia que a influência religiosa ocorre principalmente por meio de valores, identidades e vínculos comunitários. Nesse cenário, a religião pode contribuir para a formação das opiniões políticas sem necessariamente resultar em uma orientação direta de voto feita por uma liderança religiosa.
Esse processo também se deslocou para fora das igrejas. Redes sociais, aplicativos de mensagens, influenciadores e grupos familiares passaram a funcionar como espaços de circulação de conteúdos religiosos e políticos.
O WhatsApp aparece com destaque nesse cenário: 66% dos entrevistados afirmaram utilizar a plataforma na articulação de comunidades e grupos religiosos online.
Evangélicos representam 29% da população
Outro aspecto destacado pela pesquisa é a diversidade existente dentro do próprio segmento evangélico.
O levantamento estima que os evangélicos correspondem a 29% da população brasileira. Desse grupo, aproximadamente 70% são pentecostais, 17% protestantes e 10% se identificam como evangélicos sem igreja.
A Assembleia de Deus aparece como a principal denominação entre os evangélicos, reunindo 32% desse grupo. Na sequência estão diversas denominações pequenas e médias, que juntas representam 28%.
Batistas e evangélicos sem igreja aparecem com 10% cada. Congregação Cristã, Igreja Universal e Igreja do Evangelho Quadrangular representam, respectivamente, 7%, 5% e 4%.
No conjunto da população brasileira, os católicos correspondem a 50%, sendo 31% praticantes e 19% não praticantes, conforme os dados divulgados pelo Iser.
Redes sociais ampliam a influência religiosa
A pesquisa também mostra que a presença da religião ultrapassa os limites dos templos.
A Bíblia ou seus versículos são apontados por 73% dos entrevistados como fonte de ensinamentos para a vida. A música gospel é consumida por 67%, enquanto filmes e séries religiosas alcançam 59%.
Esse consumo não está restrito aos integrantes de uma determinada igreja. Segundo o Iser, conteúdos religiosos também alcançam pessoas que não possuem religião ou pertencem a outras tradições.
No ambiente político, os meios utilizados para obter informações também variam entre os grupos religiosos. Entre os evangélicos, o WhatsApp aparece com maior relevância como fonte de informação política, enquanto entre os católicos a televisão tem papel mais destacado.
Pesquisa questiona associação automática entre religião e posições políticas
Os resultados também mostram que não é possível tratar os evangélicos como um grupo politicamente uniforme.
A pesquisa encontrou diferenças importantes relacionadas a escolaridade, renda, raça, gênero e território. As opiniões sobre diferentes temas também variam dentro do próprio segmento religioso.
Entre os evangélicos, por exemplo, 79% apoiam a educação sexual nas escolas, 80% são favoráveis ao uso de métodos contraceptivos e aproximadamente 90% rejeitam o homeschooling.
No debate sobre aborto, os resultados aparecem praticamente divididos: 47% defendem punição para mulheres que realizam o procedimento, enquanto 45% são contrários à punição.
O levantamento também aponta que temas relacionados às políticas públicas apresentam níveis de concordância que atravessam diferentes grupos religiosos.
Entre os entrevistados que se identificam como conservadores, 75% apoiam o Bolsa Família e 66% defendem a taxação dos mais ricos. Os números indicam que identidade religiosa ou ideológica não determina, isoladamente, a posição de uma pessoa sobre diferentes políticas públicas.
A política também provoca reações dentro das igrejas
A presença da política no ambiente religioso provocou debates e, em alguns casos, divisões entre os próprios fiéis.
Pastores entrevistados na pesquisa relatam que parte das comunidades passou a demonstrar resistência à utilização dos cultos como espaço de mobilização eleitoral.
Para representantes desse segmento, a liberdade de consciência é um dos elementos que devem ser preservados dentro das comunidades religiosas. A ideia defendida é que o fiel possa participar do processo político sem receber uma orientação eleitoral obrigatória durante o culto.
Esse movimento não significa que religiosos devam permanecer afastados do debate público. A questão central apresentada pelos entrevistados é a diferença entre participação política individual e transformação institucional da igreja em espaço de campanha.
Caso Nossa Senhora Aparecida também entrou no debate eleitoral
A relação entre religião, política e redes sociais ganhou novo capítulo durante a atual disputa eleitoral após a circulação de publicações envolvendo Nossa Senhora Aparecida e grupos ligados à campanha de Flávio Bolsonaro.
Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil, surgiram conteúdos atribuindo a grupos evangélicos ligados à campanha a defesa da retirada de Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil. Flávio Bolsonaro negou a acusação e levou o caso à Justiça Eleitoral.
O episódio provocou decisões diferentes no Judiciário. O ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), havia determinado a retirada de conteúdos. Posteriormente, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), derrubou a decisão em relação a uma publicação do humorista Antonio Tabet. Na sequência, o ministro Luiz Fux restabeleceu a suspensão.
Nesta quarta-feira (30), o TSE iniciou o julgamento relacionado ao caso. Até o momento da publicação desta reportagem, apenas André Mendonça havia apresentado voto, defendendo a manutenção da retirada das publicações.
Um eleitor religioso, mas não necessariamente subordinado à igreja
Os dados do levantamento Iser/Quaest apresentam um cenário no qual religião e política continuam profundamente conectadas, mas sem que isso represente necessariamente uma transferência automática de votos das lideranças para os fiéis.
A pesquisa aponta que o eleitor religioso pode levar valores, referências culturais e vínculos comunitários para sua decisão política, ao mesmo tempo em que rejeita que o templo seja transformado diretamente em palanque eleitoral.
Nesse contexto, o crescimento da presença religiosa nas redes sociais cria uma nova dinâmica. A influência pode acontecer por meio de vídeos, mensagens, grupos de WhatsApp, influenciadores e conteúdos compartilhados, sem necessariamente passar pela orientação explícita de um pastor ou padre durante um culto.
O estudo reforça, portanto, a diversidade existente dentro do campo religioso brasileiro e mostra que compreender o comportamento político dos fiéis exige considerar fatores que vão além da simples identificação com uma religião.

