O laranja-amargo e o canto da sereia na ‘Gaiola Digital’

NOVO? O que tem de novidade na política laranja Dizem que na política catarinense o futuro dura vinte e quatro horas; o problema é quando o passado volta em forma…
NOVO? O que tem de novidade na política laranja

NOVO? O que tem de novidade na política laranja

Dizem que na política catarinense o futuro dura vinte e quatro horas; o problema é quando o passado volta em forma de mandado de busca e apreensão, cobrando uma conta de oito milhões de reais com juros, correção e vergonha alheia.

Para entender o tamanho do tombo ético que chacoalhou os bastidores de Santa Catarina, precisamos rebobinar a fita até março deste ano. À época, o cenário parecia saído de um conto de fadas da nova política. Gilberto Leal Júnior, o todo-poderoso braço direito da gestão municipal de Joinville, filiava-se ao Podemos com pompa, circunstância e as bênçãos explícitas do prefeito Adriano Silva e de sua vice, Rejane Gambin — ambos do partido NOVO.

Memória Recente — Saiu na coluna do jornalista político Upiara em 26 de março de 2026: “O pré-candidato a deputado estadual, Gilberto Leal ex-NOVO reuniu nesta quinta-feira (26/3), na Sociedade Esmeralda, em Joinville, cerca de 750 pessoas em um evento que formalizou a sua filiação ao Podemos. Gilberto recebeu o apoio de lideranças políticas como o prefeito Adriano Silva, a vice-prefeita Rejane Gambin, ambos do NOVO… O prefeito Adriano deseja que, se eleito, tenha a parceria e a competência de Gilberto também na capital para trabalhar por assuntos de interesse da cidade mais populosa de Santa Catarina e da região Norte.”

A “competência” de Gilberto ex-NOVO, de fato, atravessou fronteiras, mas talvez não do jeito que o padrinho Adriano planejava. Corta para hoje, 17 de julho de 2026. A manchete que estampa as capas dos jornais expõe as engrenagens de um enredo bem menos glamouroso: “Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) bloqueia R$ 8.038.205,06 de Gilberto de Souza Leal Júnior por fraude em licitações.”

O que o Gaeco e o MPSC revelam na bombástica Operação “Gaiola Digital” é um roteiro clássico de corrupção sistêmica que faz qualquer dinossauro do fisiologismo chorar de inveja. O verniz de eficiência tecnológica da empresa Pública Tecnologia Ltda. servia, segundo as investigações, como biombo para um esquema sofisticado e audacioso:

  • Editais Direcionados: Mensagens e documentos recuperados na nuvem apontam o conluio estruturado para fraudar editais, inserindo exigências subjetivas em Provas de Conceito (PoC) criadas cirurgicamente para degolar a concorrência.
  • Caixa 2 e Propinas via ‘Smurfing’: Saques periódicos, fracionados e discretos feitos por funcionários administrativos para não acender os alertas do Coaf. O objetivo? Alimentar um bom e velho caixa paralelo para pagamento de propina em espécie. Dinheiro vivo, bem ao estilo do coronelismo analógico.

O verniz laranja e as velhas práticas

A piada, claro, conta-se sozinha. O partido NOVO, que construiu sua marca em cima de um moralismo quase clerical, de palestras tediosas sobre compliance e de um blá-blá-blá privatista, demonstra que na prática a teoria é outra. Quando o assunto é a manutenção do poder, o suposto “capitalismo moderno” rapidamente se despe e revela o que sempre foi: o velho coronelismo disfarçado de laranja reluzente. Se você ainda se surpreende com isso, parabéns pela inocência.

Aos bons observadores da fauna política, a tática de Adriano Silva sempre foi cristalina. Ao catapultar seu braço direito para o Podemos, o prefeito não estava apenas expandindo horizontes; estava plantando uma linha de frente para encorpar sua própria caminhada como pré-candidato a vice-governador na chapa de Jorginho Mello. E quem sabe, num futuro próximo, se a deputada Paulinha desocupar o ninho, o grupo já terá um partido inteirinho para chamar de seu. É o puro suco do xadrez político tradicional: o uso da máquina pública para pavimentar caminhos eleitorais.

Efeito dominó e hipocrisia em alta

Aliás, o festival de ironias em Santa Catarina anda movimentado. Enquanto o NOVO se afoga no suco de sua própria contradição, Jorginho Mello assiste ao seu próprio feitiço virar contra o feiticeiro. O governador cedeu a liderança do Republicanos ao deputado federal Jorge Goetten, crente de que amarraria o partido ao seu projeto de reeleição (o famoso 22). O que Jorginho não esperava — e a política adora pregar essas peças — era que a executiva nacional do Republicanos fosse dar de ombros e virar as costas para o PL. A convenção ainda não sacramentou o divórcio, mas o cheiro de traição já circula livremente pelos corredores de Florianópolis.

Voltemos a Joinville. Para quem prega austeridade e moralismo, vale sempre a pena o exercício de puxar a capivara dos gastos publicitários da gestão municipal. Se você não sabe o valor astronômico que era queimado diariamente em mídia para manter certas reputações blindadas e em evidência, procure saber. O marketing reluzente cobria as frestas. Mas o problema do marketing é que ele não resiste a um bloqueio de bens de 8 milhões de reais emitido pela Justiça.

Com o ex-secretário oficialmente incluído na “Gaiola Digital”, o discurso de pureza desmoronou. Resta saber se o eleitor catarinense vai continuar engolindo a retórica de quem, na primeira oportunidade, opera o orçamento com a desenvoltura da velha política de sempre.

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