Por: Ademir Pfiffer – Historiador, exclusivo ao portal Observa+ e JVI
À medida que o calendário avança para junho de 2026, Guaramirim prepara-se para celebrar os seus 140 anos de fundação. No entanto, uma pergunta ecoa entre os arquivos empoeirados e as ruas asfaltadas: como celebrar o futuro de uma cidade que ainda não reconciliou o seu passado com as evidências de sua própria origem? Este chamado público, endereçado ao prefeito Adriano Zimmermann, ao vice-prefeito Denis Lunelli e à egrégia Câmara de Vereadores, não é apenas um convite à festa, mas uma convocação ao dever histórico de dar luz ao patrimônio documental e funerário do município.
O Pastor e a Fundação: 1886
A história oficial e o DNA espiritual de Guaramirim passam, invariavelmente, pela figura do Pastor Wilhelm Gottfried Lange. Em 1886, Lange não era apenas um líder religioso; ele era o arquiteto de uma comunidade que nascia sob a influência do movimento da Igreja Morávia (Herrnhuter), caracterizada por um profundo senso de fraternidade e organização social. Foi sob sua liderança que as sementes de locais como Brüderthal e Bananal foram plantadas, materializando-se na confissão luterana que hoje conhecemos. Lange deixou registros meticulosos em livros paroquiais que hoje servem como o “mapa” da nossa fundação.
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O Padre e o Progresso: O Legado de Mathias Maria Stein
Se Lange lançou os alicerces no século XIX, o Padre Mathias Maria Stein foi o motor do progresso na metade do século XX. Imigrante alemão e líder da Paróquia Senhor Bom Jesus a partir do final dos anos 40, Padre Mathias transcendeu o altar. Foi um empreendedor social incansável, liderando a construção da Igreja Matriz, do hospital local e de inúmeras iniciativas que estruturaram o desenvolvimento urbano e humano de Guaramirim. Sua liderança representa o pilar católico que, harmonizando-se à base protestante, formou a identidade plural e resiliente de nossa gente.
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A Pesquisa de Astrid Eggert Boehs: Luz nos Arquivos
A base para este resgate identitário encontra-se na recente e fundamental obra de Astrid Eggert Boehs, “Memórias dos Cemitérios Evangélicos Demolidos em Guaramirim”. Através de um cruzamento meticuloso de registros paroquiais iniciados pelo próprio Pastor Lange e dados cartoriais, a autora revela uma verdade desconfortável: parte da nossa história foi literalmente soterrada pela urbanização.
A pesquisa documenta a existência de campos santos desaparecidos, como o Cemitério do Bananal (1896-1937) e o cemitério central, localizado onde hoje pulsa o comércio na Rua 28 de Agosto. Relatos de moradores e registros de obras públicas confirmam a presença de ossadas na região da atual Casa Pastoral, evidenciando que os pioneiros que desbravaram este chão com “lágrimas, amor e coragem” ainda aguardam um reconhecimento que vá além do papel.
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Um Chamado à Materialização da Memória
Não podemos permitir que os 140 anos de Guaramirim sejam apenas uma data efêmera. É necessário materializar essa identidade. O patrimônio funerário e documental é o elo mais tátil que temos com 1886. Propõe-se que a Administração Municipal e o Legislativo utilizem o trabalho de Boehs para:
Marcar o território: Instalar memoriais ou placas nos locais dos antigos cemitérios demolidos, devolvendo dignidade aos nomes citados nos registros de 1893 a 1939.
Valorizar o Legado Ecumênico: Criar espaços de memória que unam o acervo do Pastor Lange ao empreendedorismo do Padre Mathias Maria Stein.
Educação Patrimonial: Levar às escolas a história dessa transição Morávia, Luterana e Católica como pilar da fundação municipal.
Honrar nossos líderes e os colonizadores esquecidos é, antes de tudo, um ato de justiça. Que em junho de 2026, os 140 anos de Guaramirim sejam celebrados com a luz da verdade histórica, tirando das sombras aqueles que construíram os alicerces da nossa sociedade.
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