A Festa de Rei e Rainha da Associação Recreativa e Cultural Rio da Luz, sediada no tradicional Salão Barg, em Jaraguá do Sul, transcende o mero evento social, configurando-se como um estudo de caso vívido sobre a resiliência e a vitalidade do patrimônio identitário teuto-brasileiro. A associação, fundada em 15 de agosto de 1915, é o pilar desta manifestação.
Neste contexto, o evento é analisado sob a lente do historiador René Gertz, que aponta as associações étnicas como os espaços cruciais para a preservação da memória e dos rituais culturais no Sul do Brasil. O objetivo desta análise é demonstrar como o protocolo, as lideranças, a gastronomia e a música da festa de Rio da Luz cumprem esse papel de transmissão cultural e reafirmação da etnicidade de seus descendentes de pomeranos e alemães.
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1. Contexto Histórico e Econômico da Fundação
A fundação da associação, em 1915, remonta a um período de intensa atividade no Brasil, então governado pelo presidente da República Venceslau Brás, o estado por Felipe Schmidt (governador) e o município por Henrique Piazera (intendente municipal). A Associação nasceu em um território de forte economia rural, onde a atividade era pautada pela agricultura de subsistência, a prática da pecuária (notadamente a primeira bacia leiteira de Jaraguá) e a suinocultura. Além disso, a intensa extração da madeira da Mata Atlântica, impulsionando diversas serrarias, moldava a vida dos colonos, destacando o papel comunitário da entidade recém-fundada.
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2.Ritual e Transmissão da Identidade: A Corte e o Schützenverein
O casal homenageado como Rei e Rainha da Festa, Mirson e Renita L. Baumgartel, representa a profunda conexão familiar e de liderança com o patrimônio ritualístico, elemento central na análise de Gertz. A ligação dos Baumgartel com o local é histórica: o avô de Mirson, Alfredo Baumgartel, foi sócio do antigo Salão Barg, e seu legado permanece com uma placa no estande de tiro, honrando-o como atirador cultural do Schützenverein. Mirson seguiu a tradição de liderança (presidente da Sociedade da Sociedade Aliança de 2015 a 2017) e tiro (rei e cavalheiro do tiro ao alvo), enquanto Renita foi rainha e princesa do tiro folclórico.
O protocolo do evento é um mecanismo de rememoração em si:
- A celebração iniciou às 18h com a concentração, seguida pela caravana de busca das majestades em um cortejo que percorreu a Rua Eurico Duwe.
- A sessão solene de homenagem, conduzida pelo comandante da marcha, Almir Kickhoefel, inclui agradecimentos ao corpo de bandeireiros, a menção a entidades coirmãs e a antigas realezas, como Amanda Maiara Meyer, Rainha do Salão Barg 2025 e 1ª Princesa da Schützenfest 2026.
- O ápice é o discurso do Rei Mirson, que, representando a corte, contextualiza a história de sua família na associação, reforçando a legitimidade da liderança e a continuidade histórica.
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3.Patrimônio Imaterial: Gastronomia e Música como Etnicidade Negociada
A manutenção da identidade cultural é reforçada pela culinária e pela música, manifestando a etnicidade negociada descrita por Gertz, onde a cultura é adaptada ao contexto local.
- Gastronomia: O jantar festivo, pilotado pela equipe de Katia Velz (Rio Cerro II), teve como destaque o tradicional strudel de queijinho. A menção à origem do prato como herança da imigração húngara em confluência com a colonização pomerana e alemã ilustra o sincretismo cultural da região.
- Música e Baile: A celebração musical começou às 19h com a Banda Aurora (Rio Cerro II, 1958). Seu repertório evocava o passado, em momentos nostálgicos como a performance do músico Lauro Siebert em uma canção alemã. O baile com a Banda San German (Rio dos Cedros), a partir das 21h, manteve a tradição germânica, porém mesclada com ritmos brasileiros e regionais, provando a vitalidade cultural e a capacidade de adaptação da etnia.
- Renovação da Corte: Antes do baile, o concurso da escolha da realeza para a 36ª Schützenfest (Daniele Piske, Rainha; Amanda Schwarz, 1ª Princesa; e Andressa Méier, 2ª Princesa) demonstra o papel do evento como plataforma de renovação e transmissão interassociativa de poder e prestígio.
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Considerações Finais
A Festa de Rei e Rainha no Rio da Luz é muito mais do que um evento; é uma reafirmação periódica e detalhada do patrimônio identitário teuto-brasileiro. Conforme a teoria de René Gertz, a Associação Recreativa e Cultural Rio da Luz atua como o locus de memória viva, utilizando o protocolo, os títulos de tiro (o schützenverein), a genealogia da corte e as expressões culinárias/musicais como ferramentas para manter a coesão social e transmitir o legado cultural.
O evento é um testemunho da resiliência da comunidade de descendentes, que, desde 1915, conseguiu preservar seus rituais fundamentais, enquanto adaptava sua cultura de forma dinâmica e negociada ao contexto brasileiro.
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