Era véspera de Natal. Naquele final de tarde, João caminhava lentamente com uma mochila desfiada nas costas, praticamente vazia. Sobrou muito pouco para carregar depois que perdeu o emprego e foi despejado da casa onde vivia. Depois que o salário-desemprego foi suspenso, ele acabou em situação de rua. E especialmente no dia em que todos finalizam os preparativos natalinos, a tristeza pela situação de excluído doía ainda mais.
A noitinha chegava e as luzes se tornavam visíveis. As lojas tinham estendido o horário de atendimento e a correria era grande para os compradores de última hora, para alegria dos vendedores e proprietários. Os retardatários pareciam não se incomodar por enfrentarem as longas filas nos caixas em busca, ávidos pelos descontos de última hora. Os sortudos saíam sorrindo, carregados de pacotes.
Tudo isso era observado de longe por João. Lágrimas involuntárias escorreram dos olhos dele naquele momento. Como estaria a família nesse dia? Será que ainda lembravam dele? Fazia essas perguntas para ele mesmo. “Devem ter me esquecido, achando que morri, ou que estou bem e nem me importo com eles”, pensou, com um aperto no coração.
A fome estava apertando. O estômago roncou. Durante o dia, conseguiu se alimentar com o que lhe deram em um restaurante, mas já se passaram muitas horas… Com sorte, sempre tinha um comerciante da feira que doava frutas no final dia, ou alguma “boa alma” que entregava um lanche. Mas hoje não teve feira.

Foi aí que João decidiu se dirigir à Praça principal da cidade. Lá encontrava outros desventurados como ele, que dividiam o pão, ou que mais tivessem. Nessas horas, o cachorro caramelo, não por acaso chamado de “Magrelo” aparecia também. Se protegiam entre si, dos roubos e de eventual violência. Naquela noite, João, Juventino e Jonas dividiram umas poucas bolachas e pães, inclusive com o Magrelo em silêncio e cabisbaixos.
Eis que aparece Gabriel, o dono do mercadinho ali perto, acompanhado do filho José. Traziam uma grande sacola refratária e sorriram para eles, incrédulos com a surpresa.
– Hoje é Natal! Lembramos de vocês, disse Gabriel, sorrindo.
A sacola tinha um frango com farofa, arroz, batata-palha, salada, chocolates, pães, biscoitos, leite e sucos de laranja. Com tanta fartura, sobrou até para o caramelo…
E assim, a solidariedade genuína proporcionou a partilha da ceia de Natal para aqueles sem-teto, que já sentiam renovar as esperanças para o ano seguinte.
Decidiram que iriam aceitar o auxílio da Assistência Social e largar aquela vida de andarilhos sem rumo. Resgatar a dignidade e voltar a trabalhar.
Aquela foi uma noite mágica, em que até as estrelas se tornaram mais brilhantes, iluminadas pela lua.

Sônia Pillon é jornalista, escritora, palestrante e colunista, formada em Jornalismo pela PUC-RS e pós-graduada em Produção de Texto pela Univille. Integra a Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB-SC), a Associação das Letras e o Grupo Literário A ILHA. Fundadora da ALBSC Jaraguá do Sul.















