AQUI TEM HISTÓRIA | Por: Ademir Pfiffer, historiador. Exclusivo ao Portal Observa+ e Jornal do Vale do Itapocu
Ao celebrar o sesquicentenário de Jaraguá do Sul, torna-se indispensável reconhecer as pessoas que, por meio de suas vivências, mantêm vivas as tradições culturais construídas desde a chegada dos imigrantes europeus ao Vale do Itapocu, na segunda metade do século XIX. Entre esses grupos, destaca-se a contribuição dos imigrantes de origem pomerana, cuja dedicação ao associativismo, às sociedades de tiro (Schützenvereine), às festas de rei, ao espírito comunitário e à preservação das tradições ajudou a formar parte significativa da identidade cultural jaraguaense.
É nesse contexto que se insere a trajetória de Scheila Caroline Buttendorff, descendente de família ligada às tradições germânicas (pomerana e alemã) e participante ativa do movimento cultural das sociedades de tiro desde a infância. Sua história demonstra como o patrimônio cultural não é apenas um legado recebido das gerações anteriores, mas uma herança vivida diariamente, transmitida por meio da família, das comunidades e das associações culturais.
Eleita Rainha da Atiradoras da 35ª Schützenfest, Scheila representa uma geração que compreende o verdadeiro significado das tradições germânicas preservadas em Jaraguá do Sul: valores de união, disciplina, convivência comunitária, respeito e pertencimento. Sua trajetória evidencia que o patrimônio cultural permanece vivo quando encontra continuidade nas novas gerações.
A presente entrevista por Ademir Pfiffer, historiador, integra o conjunto de registros históricos produzidos em homenagem aos 150 anos de Jaraguá do Sul, contribuindo para documentar memórias individuais que, reunidas, formam a memória coletiva da cidade e fortalecem a valorização do patrimônio cultural imaterial.
Dados de identificação
Nome completo, data de nascimento, filiação: Scheila Caroline Buttendorff, 16/10/1994, filha de Atinisio Buttendorff e Marisa Zilse Buttendorff
Formação escolar
Sou graduada em Tecnologia em Processos Gerenciais e atualmente curso Engenharia Civil, estando no 3º semestre na Faculdade Católica de Santa Catarina.
Aspectos marcantes da infância e juventude
Desde muito pequena, as tradições da comunidade fizeram parte da minha rotina. Meus pais sempre estiveram envolvidos nas festas das sociedades de tiro e, desde bebê, eu os acompanhava. Enquanto eles trabalhavam, eu dormia junto do meu irmão e de outras crianças em um quarto dentro da sociedade — todos nós filhos de sócios que cresciam nesse ambiente acolhedor.
Durante o dia, a sociedade virava nosso grande espaço de diversão. Brincávamos sem parar pelo salão com os filhos de outros sócios e convidados. Voltávamos para casa sempre muito sujos, de tanto aproveitar cada momento. Uma das nossas brincadeiras preferidas era jogar “futebol” na pista de dança usando tampinhas de garrafa — e aquilo para nós era o auge da diversão.
Essas vivências marcaram profundamente minha infância e juventude. Cresci rodeada de tradição, comunidade e alegria, e foi nesse ambiente que desenvolvi meu carinho pelas sociedades de tiro e pelas festas de rei. Essas memórias me acompanharam ao longo da vida e contribuíram para que eu me sentisse honrada em representar as atiradoras como rainha da 35ª Schützenfest.
Ingresso e participação no movimento do tiro ao alvo, de caráter folclórico e cultural
Meu ingresso no movimento do tiro ao alvo aconteceu de forma muito natural, pois minha ligação com as sociedades de tiro vem de família. Meu pai é sócio e fez parte da construção do salão novo — que hoje já nem é tão novo assim. Além disso, meus primos, também filhos de sócios, sempre participaram do tiro esportivo, o que deixou o ambiente ainda mais familiar para mim.
Meu irmão, sendo mais velho, foi convidado a participar junto com os nossos primos, e eu sempre acompanhava. Como ele começou a atirar, logo nasceu em mim o desejo de fazer o mesmo. Eu insistia para que me deixassem participar também, mesmo sem ter ainda a idade ou o tamanho ideal. Mas, como na época isso era permitido, acabei começando muito pequena.
Esse início precoce me fez desenvolver desde cedo um carinho especial pelo movimento do tiro, não apenas pelo esporte em si, mas por tudo o que ele representa culturalmente: tradição, convivência, disciplina e orgulho comunitário. Esse envolvimento desde a infância foi fundamental para que, mais tarde, eu continuasse participando ativamente com ainda mais dedicação e entusiasmo.
AQUI TEM HISTÓRIA | Scheila Caroline Buttendorff: A trajetória da rainha das atiradoras da 35ª Schützenfest e a força do patrimônio cultural no sesquicentenário de Jaraguá do Sul
Quem foi o incentivador para a prática do tiro folclórico e cultural ?
O meu interesse pelo tiro folclórico e cultural nasceu principalmente por acompanhar meu irmão. Ele foi convidado a participar pelos nossos primos, que já praticavam o tiro esportivo, e eu estava sempre junto. Na época, meu pensamento era simples: se meu irmão podia, eu também podia. Essa convivência despertou em mim a vontade de participar.
Além disso, sempre houve muito incentivo dos meus pais, que eram frequentadores assíduos e sócios da sociedade. Eles sempre estiveram envolvidos nas tradições, e isso fez com que eu crescesse dentro desse ambiente.
Com o tempo, deixou de ser apenas curiosidade ou vontade de fazer igual ao meu irmão. Foi aí que nasceu a verdadeira paixão pelo tiro — uma paixão que permanece viva até hoje.
AQUI TEM HISTÓRIA | Scheila Caroline Buttendorff: A trajetória da rainha das atiradoras da 35ª Schützenfest e a força do patrimônio cultural no sesquicentenário de Jaraguá do Sul
Qual o número de medalhas conquistadas na trajetória?
Ao longo da minha trajetória, conquistei diversas medalhas, mas não tenho um número exato para informar. Foram anos de participação em diferentes eventos, categorias e festas de tiro, e cada conquista representa um momento especial. Mais do que a quantidade, o que realmente marcou foi a experiência, o aprendizado e o orgulho de representar a sociedade em cada competição.
AQUI TEM HISTÓRIA | Scheila Caroline Buttendorff: A trajetória da rainha das atiradoras da 35ª Schützenfest e a força do patrimônio cultural no sesquicentenário de Jaraguá do Sul
Em qual Sociedade ou Clube já conquistou o título de majestades?
Conquistei dois títulos ao longo da minha trajetória: o de Rainha da 35ª Schützenfest e o de princesa juvenil na modalidade de carabina 22. Não me recordo o ano deste último, mas, na época, a participação de atletas juvenis ainda era permitida. Ambos os títulos foram conquistados representando a minha própria sociedade, a Sociedade Atiradores Independência. Por ser o lugar onde cresci e sempre estive envolvida, esse reconhecimento teve um significado ainda mais especial para mim.
AQUI TEM HISTÓRIA | Scheila Caroline Buttendorff: A trajetória da rainha das atiradoras da 35ª Schützenfest e a força do patrimônio cultural no sesquicentenário de Jaraguá do Sul
Qual a importância do patrimônio cultural do Schützenverein na sua trajetória de vida?
O patrimônio cultural do Schützenverein tem um significado muito profundo na minha vida. Ele não é apenas parte da história da nossa comunidade — ele faz parte da minha própria história. Cresci entre salões, festas, músicas e tradições que me acolheram desde bebê, enquanto meus pais trabalhavam, eu estava aprendendo a amar esse ambiente.
Cada lembrança dentro da sociedade, cada brincadeira no salão, cada festa de rei e cada momento ao lado da minha família e dos amigos foi construindo em mim um sentimento de pertencimento muito forte. O Schützenverein me ensinou valores que levo comigo até hoje: união, respeito, amizade e orgulho pela nossa cultura.
Por isso, a importância desse patrimônio cultural na minha trajetória é enorme. Ele moldou a pessoa que sou, me acompanhou em todas as fases da vida e se tornou parte da minha identidade. Representar esse movimento como rainha das atiradoras da 35ª Schützenfest foi, para mim, foi muito mais do que um título. Foi uma realização pessoal, um orgulho imenso e a realização de um sonho que nasceu ainda na minha infância, quando tudo começou de forma tão natural. Ser rainha foi a maneira mais linda de retribuir tudo o que essa tradição me proporcionou ao longo da vida.
AQUI TEM HISTÓRIA | Scheila Caroline Buttendorff: A trajetória da rainha das atiradoras da 35ª Schützenfest e a força do patrimônio cultural no sesquicentenário de Jaraguá do Sul
Considerações finais
O depoimento de Scheila Caroline Buttendorff revela que o patrimônio cultural é construído muito além dos títulos e das competições. Sua narrativa demonstra que a preservação das tradições nasce no ambiente familiar, fortalece-se nas sociedades culturais e se perpetua por meio das experiências compartilhadas entre diferentes gerações.
Sua infância vivida nos salões das sociedades de tiro, a participação espontânea nas atividades comunitárias e o orgulho em representar a Sociedade Atiradores Independência ilustram como as associações culturais continuam desempenhando um papel essencial na formação da identidade local. Ao tornar-se Rainha das Atiradoras da 35ª Schützenfest, Scheila simboliza não apenas uma conquista pessoal, mas o reconhecimento de uma trajetória profundamente ligada ao patrimônio cultural de Jaraguá do Sul.
No contexto do sesquicentenário, entrevistas como esta assumem importante valor documental, pois registram memórias que ajudam a compreender como as tradições herdadas dos imigrantes pomeranos, alemães e demais grupos formadores da cidade permanecem vivas no cotidiano da comunidade. Preservar esses relatos significa fortalecer a memória coletiva e assegurar que as futuras gerações conheçam e valorizem os fundamentos históricos e culturais que moldaram Jaraguá do Sul.
AQUI TEM HISTÓRIA | Scheila Caroline Buttendorff: A trajetória da rainha das atiradoras da 35ª Schützenfest e a força do patrimônio cultural no sesquicentenário de Jaraguá do Sul
Fique sempre bem informado!
Participe do nosso grupo de WhatsApp e acompanhe as principais notícias do País.
Observação: o portal Observa+ é o portal de notícias que traz todas as notícias do impresso Jornal do Vale do Itapocu. Fique sempre bem informado!
