AQUI TEM HISTÓRIA | O silêncio da memória no prato: A Feira Sabores e os 140 anos de Guaramirim sem o registro de seu patrimônio culinário imaterial

A Feira Sabores e os 140 anos de Guaramirim revelam a falta de registro do patrimônio culinário imaterial. Leia e participe do nosso WhatsApp!
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Foto: divulgação
AQUI TEM HISTÓRIA | Por: Ademir Pfiffer – historiador. Especial ao Portal Observa+ e Jornal do Vale do Itapocu

Em maio de 2026, Guaramirim celebra a 6ª edição da Feira Sabores, um evento consolidado que atrai milhares de pessoas para saborear a diversidade gastronômica local. Paralelamente, o município festeja o marco histórico de seus 140 anos de fundação, cujas raízes remontam ao início do processo de colonização em 1876. No entanto, por trás do sucesso de público e do aroma dos pratos servidos, oculta-se uma severa lacuna institucional: a ausência do registro oficial da gastronomia local como Patrimônio Cultural Imaterial.


Apesar de o evento ter cruzado diferentes gestões públicas desde a sua gênese na era do prefeito Nilson Bylaardt, o Poder Executivo, o Poder Legislativo e o Conselho Municipal de Cultura falharam em demandar ações efetivas de governança para salvaguardar a culinária tradicional. A comida não é apenas subsistência, mas um vetor de coesão social, identidade e memória dos fluxos migratórios que ergueram o território. Celebrar o sesquicentenário aproximado sem esse reconhecimento jurídico e histórico enfraquece o vínculo comunitário e negligencia o legado dos antepassados.

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Contexto Histórico: Colonização, Imigração e a Coesão pelo Paladar

A história de Guaramirim funde-se com a epopeia da colonização alemã, italiana, leta, portuguesa, afrodescendente, polonesa e de outras correntes que ocuparam o Vale do Itapocu a partir de 1886, estendendo-se pelas frentes de assentamento que desbravaram a antiga hinterland da Colônia Dona Francisca e as terras da lavoura. Os imigrantes enfrentaram o isolamento geográfico, a densidade da mata atlântica e o desafio de reconstruir suas vidas em terras desconhecidas. Nesse cenário de adversidades, os hábitos e costumes alimentares funcionaram como o principal elemento de resistência cultural e coesão psicossocial.


A cozinha era o espaço sagrado onde o passado europeu dialogava com os ingredientes nativos, como a mandioca, o milho e a banana. O preparo do pão no forno a lenha, as geleias, os embutidos, as receitas tradicionais de pães, massas, polentas e cucas não representavam apenas o cardápio diário, mas rituais comunitários de solidariedade, mutirões de colheita e festividades religiosas. Preservar essas práticas culinárias era manter viva a memória afetiva da pátria distante e garantir a sobrevivência física e cultural do grupo. Hoje, a Feira Sabores herda essa herança efervescente, mas sem a devida contextualização histórica, corre o risco de converter a tradição em mero produto de consumo comercial efêmero.

O Papel da Prefeitura: A Gestão Executiva e o Inventário Cultural

Ao Poder Executivo Municipal, por meio de sua Fundação de Cultura, compete o papel operacional e técnico de dar o primeiro passo científico em direção à salvaguarda. A prefeitura possui a estrutura administrativa necessária para deflagrar o Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC), metodologia essencial para mapear quem são os detentores desses saberes culinários nas comunidades rurais e urbanas de Guaramirim.


Cabe ao prefeito e seus diretores culturais destinar dotação orçamentária para a contratação de historiador antropólogo e pesquisador que possam documentar as receitas tradicionais, as técnicas de manejo e a história das famílias colonizadoras. Além disso, a prefeitura deve estruturar e abrir o Livro de Registro dos Saberes e o Livro de Registro das Celebrações em âmbito municipal. Sem a iniciativa do Executivo em coordenar a política pública de patrimônio, as manifestações gastronômicas permanecem na invisibilidade jurídica, desprotegidas contra a descaracterização gerada pelo tempo.

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A Câmara de Vereadores: Legislação e Fiscalização da Memória

O Poder Legislativo de Guaramirim desempenha uma função crucial que vai muito além da entrega de moções festivas. Compete à Câmara de Vereadores a modernização da legislação sobre o patrimônio cultural do município, garantindo que as leis específicas de tombamento e registro de bens imateriais estejam atualizadas e alinhadas com as diretrizes do IPHAN e da Fundação Catarinense de Cultura (FCC).


Os vereadores têm o direito e o dever de propor emendas parlamentares que canalizem recursos para projetos de valorização da história da imigração e das frentes de assentamento. Mais do que isso, a Câmara deve exercer seu papel constitucional de fiscalização, cobrando formalmente do Executivo o cumprimento das metas culturais e a aplicação correta dos fundos setoriais. Audiências públicas promovidas pelo Legislativo são fundamentais para tensionar o debate, engajar a sociedade e dar voz aos produtores artesanais, transformando o desejo comunitário em demanda pública impositiva.

O Conselho Municipal de Cultura: Governança, Mobilização e Controle Social

Como órgão colegiado de caráter consultivo, deliberativo e fiscalizador, o Conselho Municipal de Cultura de Guaramirim é a ponte vital entre a sociedade civil e o Estado. Compete a este conselho pautar a urgência do registro da culinária tradicional como patrimônio imaterial em suas reuniões ordinárias, exigindo assento e voz na organização de eventos como a Feira Sabores para que a dimensão histórica não seja soterrada pela dimensão comercial.


O conselho deve articular a criação de uma Câmara Técnica de Patrimônio Imaterial, mobilizando as associações de moradores, produtores rurais, núcleos de descendentes de imigrantes, historiadores locais e gastrônomos. É de sua competência aprovar as diretrizes do Plano Municipal de Cultura, inserindo metas claras para o registro de expressões imateriais. Ao falhar em gerar essa demanda e cobrar o poder público, o Conselho esvazia seu papel de controle social e permite que a memória coletiva seja gerida apenas por conveniências políticas temporárias.

Considerações Finais

Celebrar 140 anos de fundação sob o brilho de uma feira gastronômica bem-sucedida, mas órfã de amparo patrimonial oficial, revela uma contradição que Guaramirim precisa superar com urgência. A comida tradicional herdada dos pioneiros de 1886 não pode ser tratada apenas como um item de cardápio festivo; ela é a materialização da resiliência, da identidade e da fusão cultural que define o povo guaramirinense.


A inércia compartilhada entre Prefeitura, Câmara e Conselho de Cultura nos últimos anos gerou um hiato histórico que empobrece o turismo cultural e a autocompreensão do município. Para que as futuras gerações compreendam a complexidade das frentes de assentamento, imigração e colonização, é imperativo que a governança pública assuma sua responsabilidade, transformando a Feira Sabores em uma vitrine viva de um patrimônio formalmente protegido, registrado e orgulhosamente salvaguardado.

Fontes de Referência

  1. INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Manual do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC). Brasília: IPHAN, 2000.
  2. GUARAMIRIM. Plano Municipal de Cultura de Guaramirim. Diretrizes e metas setoriais. Órgãos de Gestão Cultural do Município.
  3. SEYFERTH, Giralda. Imigração e Colonização no Brasil: Uma abordagem histórica e antropológica. Revista de Antropologia, USP, 1999.

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