História – A preservação dos biomas e o desenvolvimento regional sustentável têm demandado arranjos institucionais cada vez mais complexos e colaborativos. No Sul do Brasil, a iniciativa voluntária da Grande Reserva Mata Atlântica (GRMA) destaca-se como um esforço monumental para promover o turismo de natureza em um dos maiores remanescentes florestais do planeta. Recentemente, a 67ª Reunião da Rede de Portais do Setor Serra Mar Sul, realizada em Garuva, reuniu técnicos da Associação dos Municípios do Vale do Itapocu (AMVALI) para planejar rotas e estratégias de mercado para os Portais Itapocu, Babitonga e Quiriri. Contudo, o desenho dessas instâncias de governança revela uma lacuna metodológica crônica: a ausência de profissionais dedicados à memória, à arquitetura e à salvaguarda histórica. Para que o turismo de natureza se converta em uma experiência identitária profunda, torna-se imperativo que a AMVALI integre, em seus próximos eventos e comitês, historiadores, arquitetos e os fiscais executivos do patrimônio cultural de cada município envolvido.
O Silo Administrativo e a Paisagem como Documento Histórico
A atual estrutura de planejamento regional tende a segmentar a gestão pública em caixas herméticas. De um lado, engenheiros florestais e biólogos dedicam-se à mensuração e conservação da biodiversidade; de outro, turismólogos concentram-se na viabilidade comercial, na logística e na roteirização de atrativos. Nesse processo, a paisagem natural é frequentemente tratada como um cenário estático, puramente contemplativo ou destinado aos esportes de aventura. Ignora-se, todavia, que a Mata Atlântica não é apenas um banco genético ou um santuário ecológico intocado, mas sim um território profundamente antropizado, moldado por séculos de interações humanas e dinâmicas econômicas.
A floresta é, em si, um documento histórico de valor inestimável. Espécies como a canela, a peroba e o jacarandá não são apenas componentes da flora nativa; foram a base material que sustentou a colonização do Norte de Santa Catarina. Essas madeiras ergueram a arquitetura enxaimel, estruturaram as primeiras ferrovias regionais e impulsionaram a indústria moveleira e de esquadrias que definiu o perfil socioeconômico de cidades como Jaraguá do Sul, Guaramirim, Massaranduba, Corupá e Schroeder. Ao privar as reuniões da Rede de Portais da presença de um historiador, anula-se a oportunidade de enriquecer o turismo com narrativas sobre a etnobotânica, os ciclos extrativistas e o saber-fazer dos povos indígenas e dos imigrantes pioneiros. Sem a narrativa histórica, a árvore torna-se apenas um elemento genérico da paisagem, esvaziada de sua força simbólica e de sua conexão com a identidade local.

A Intervenção Técnica: Arquitetura e Fiscalização do Patrimônio Edificado
Da mesma forma, o isolamento do setor de turismo afasta os profissionais responsáveis pela materialidade das cidades que margeiam a reserva florestal. A inclusão de arquitetos e dos fiscais executivos do patrimônio de cada município nas discussões da AMVALI é uma medida de salvaguarda e de consistência mercadológica. O turista que percorre os roteiros do Portal Itapocu não habita exclusivamente a mata; ele transita entre o ambiente natural e os núcleos urbanos e rurais históricos.
Os arquitetos trazem a leitura técnica sobre a paisagem cultural, conectando o patrimônio edificado, como os antigos casarões, engenhos e capelas, ao entorno natural. Já os fiscais executivos de patrimônio detêm o conhecimento legal sobre as áreas de tombamento, inventários municipais e diretrizes de preservação. A presença desses atores nos eventos de governança política assegura que a abertura de novas rotas turísticas não resulte na degradação de sítios históricos por intervenções inadequadas, garantindo que o desenvolvimento de infraestruturas respeite a linguagem arquitetônica e a memória regional.
Considerações Finais
O sucesso da Grande Reserva Mata Atlântica e a eficácia das políticas públicas coordenadas pela AMVALI dependem da superação do modelo burocrático fragmentado. A Mata Atlântica é um símbolo indissociável do patrimônio simbólico do Brasil, onde a natureza e a cultura confluem em uma única herança. Portanto, a governança regional precisa evoluir para o conceito de Patrimônio Integral. Recomenda-se formalmente que, nos próximos encontros e comitês técnicos da AMVALI, mesas de diálogo interdisciplinares sejam instituídas, garantindo assento permanente a historiadores, arquitetos e fiscais municipais de patrimônio. Somente através dessa fusão de saberes será possível transformar o turismo de natureza em um vetor de preservação ambiental que celebra, simultaneamente, a memória material e imaterial do Vale do Itapocu.
Fontes de Referência (história)
- AMVALI. Atas e Relatórios Técnicos das Câmaras Setoriais de Turismo e Meio Ambiente. Jaraguá do Sul, SC.
- GRANDE RESERVA MATA ATLÂNTICA (GRMA). Conceito, Governança e Redes de Portais. Disponível em documentos institucionais da iniciativa voluntária.
- OBSERVA+/JORNAL DO VALE DO ITAPOCU. Rede de Portais da Grande Reserva Mata Atlântica se reúne em Garuva. Reportagem sobre a 67ª Reunião do Setor Serra Mar Sul, 2026.
- SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: EDUSP, 2002. (Reflexão sobre a paisagem antropizada).

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