AQUI TEM HISTÓRIA | Herança transatlântica e tiro cultural: Fabiano Luís Schmidt personifica a história e a identidade nos 150 anos de Jaraguá do Sul

Por Ademir Pfiffer – Historiador e Memorialista
AQUI TEM HISTÓRIA | Herança transatlântica e tiro cultural: Fabiano Luís Schmidt personifica a história e a identidade nos 150 anos de Jaraguá do Sul
Foto: Divulgação

AQUI TEM HISTÓRIA – No horizonte das celebrações que preparam e consolidam os 150 anos de fundação de Jaraguá do Sul (1876–2026), a ressurreição da memória coletiva e o registro das trajetórias individuais tornam-se imperativos para compreender a identidade local. A história do município deita raízes no pioneirismo de Emílio Carlos Jourdan, engenheiro e concessionário das terras da Princesa Isabel e do Conde d’Eu, que em 1876 iniciou a demarcação oficial e abriu espaço para o assentamento e a colonização da região.

Esse fluxo migratório esteve profundamente conectado à ampla política de imigração fomentada pelo Imperador Dom Pedro II. No contexto internacional, destaca-se a histórica aproximação diplomática entre a Coroa Brasileira e Francisco José I — que atuava como Imperador da Áustria e Rei da Hungria, governando a monarquia dual conhecida como Áustria-Hungria, estabelecida após o Compromisso Austro-Húngaro de 1867. Essa articulação geopolítica facilitou a vinda de diversas etnias da Europa Central para o Sul do Brasil, incluindo grupos de nacionalidade húngara e os germânicos conhecidos como suábios do Danúbio (Donauschwaben).

É nessa intersecção de ricas heranças culturais que se insere a trajetória de Fabiano Luís Schmidt, descendente dessas correntes migratórias centro-europeias (suábios do Danúbio e imigrantes húngaros). Bacharel em Engenharia de Controle e Automação e atirador de destaque, Fabiano personifica a preservação do patrimônio cultural imaterial da região. Consagrado múltiplas vezes como Rei dos Atiradores da Schützenfest — incluindo o título da histórica 35ª edição e o reinado de 2025 (2026) —, ele compartilha nesta entrevista suas memórias de infância na Sociedade Atiradores Independência, o legado familiar e a importância de manter vivas as tradições no contexto do sesquicentenário de Jaraguá do Sul.

O Legado Familiar na Sociedade Independência e o Resgate das Tradições dos Colonizadores

Dados de identificação

  • Nome completo: Fabiano Luís Schmidt;
  • Data de nascimento: Nascido em 20.08.1984 – Natural de Jaraguá do Sul-SC;
  • Filiação: Filho de Osmar Schmidt e Tusnelda Buttendorff Schmidt;
  • Formação escolar: Bacharel em Engenharia de Controle e Automação. Pós-graduando em Engenharia de Segurança do Trabalho e também pós-graduando em MBA em Gestão de Projetos.

Pergunta: Quais são os aspectos marcantes da sua infância e juventude? Fabiano Luís Schmidt: Minha infância sempre foi imersa na cultura alemã, principalmente. Dentro de casa, a língua falada era o alemão. O português basicamente entrou no meu dia a dia quando iniciei a 1ª série na escola municipal de ensino fundamental Aurélia Walter, com o professor Kunibert Krause. Nesta escola, permaneci até a 4ª série.

Dentro dessa cultura alemã na qual eu sempre estive inserido, a Sociedade Atiradores Independência era um ambiente em que eu vivi a minha vida, tanto por causa da proximidade com o salão (sempre fui o vizinho mais próximo da sociedade) e porque praticamente toda a minha família sempre foi sócia do Independência, estar no “Salão” (que é a forma como sempre chamamos a sociedade) era rotineiro.

Desde muito pequeno acompanhando meus pais e avós, brincando com as demais crianças durante as festas de rei e rainha, dormindo no quartinho dentro do salão durante os bailes enquanto os pais estavam ajudando nas tarefas do baile, até ajudando um pouco na organização e limpeza do salão pré e pós eventos.

Por causa da Sociedade, desde pequeno também já passei a frequentar a Schützenfest, principalmente os desfiles de domingo, onde lembro-me os sócios iam até a Sociedade e de lá seguiam de ônibus para o desfile. Num desses desfiles eu me lembro que eu puxava, junto com um primo meu, uma pequena carroça muito enfeitada onde dentro estava minha irmã mais nova.

Outro fato curioso que sempre me vem à memória é uma das várias festas de rei onde o rei foi meu pai, numa época em que a festa ainda era realizada na residência do rei, e lembro-me que ela foi realizada no aviário que estava sendo finalizada a construção, foi uma celebração da tradição muito linda.

Pergunta: Como ocorreu o seu ingresso e participação no movimento do tiro ao alvo, de caráter folclórico e cultural? Fabiano Luís Schmidt: Sempre fiz parte da sociedade porque meus avós, pais e irmãos mais velhos já faziam parte dela. Como a família já era sócia, com cerca de 13 anos de idade comecei a participar mais ativamente da equipe de tiro juvenil da sociedade. Naquela época, começamos em quatro adolescentes a participar das competições de tiro durante o ano. Dificilmente eu conseguia a medalha de primeiro lugar naquela época, mas sempre persisti e busquei melhorar.

Até demorei um tempo para me tornar sócio oficialmente (com carteirinha) do Independência. Quando meu avô paterno, Sr. Wendelin Joaquin Schmidt adoeceu e passou a ter dificuldades locomotoras para frequentar o salão, ele falou lá em casa que iria abrir mão do título dele e que gostaria que algum dos netos dele ficasse com esse título. Optei por permanecer com o título que era dele, isso tem um valor muito grande para mim, pois sempre é uma memória que tenho do meu saudoso avô.

Pergunta: Quem foi o incentivador para a prática do tiro folclórico e cultural? Fabiano Luís Schmidt: Não tem como não falar que meu pai foi minha primeira inspiração, ver ele sendo rei da sociedade sempre me deu muito orgulho. Depois, dentro da equipe de tiro, tenho como referência o meu irmão mais velho, Claudio, que além de ser um ótimo atirador, também sempre foi responsável por manter a motivação em participar, principalmente quando eu ainda não estava conseguindo ser sequer o melhor atirador juvenil da minha sociedade.

Pergunta: Qual o número de medalhas conquistadas na trajetória? Fabiano Luís Schmidt: Não sei mesmo informar a quantidade de medalhas e troféus relacionadas ao tiro que possuo, nesses cerca de 28 anos participando de campeonatos de tiro de diversas modalidades muitas e muitas medalhas foram conquistadas.

Conquistas relacionadas à Schützenfest:

  • Rei dos atiradores nos anos 2007 (2008), 2011 (2012), 2014 (2015), 2015 (2016), 2024 (2025) e 2025 (2026).
  • Rei da modalidade Chumbinho e cavalheiro nas modalidades Seta e Carabina 22.

Há alguns anos comecei a participar de campeonatos estaduais de tiro, representando a cidade de Jaraguá do Sul, por meio da parceria CAJ/Secel, nas modalidades carabina ar 10m Livre, carabina seta livre e carabina .22 apoiado, as quais também já me renderam algumas conquistas.

Conquistas a nível estadual no individual:

  • 3º lugar JASC 2025 – modalidade carabina 22 apoiado;
  • Vice-campeão estadual 2024 – modalidade carabina 22 apoiado;
  • Vencedor individual de diversas etapas do campeonato estadual modalidade carabina 22 apoiado.

Pergunta: Em qual Sociedade ou Clube já conquistou o título de majestades (Rei/Rainha, Cavalheiro/Princesa)? Fabiano Luís Schmidt: Nunca fui rei em nenhuma sociedade, já fui cavalheiro em algumas oportunidades apenas na sociedade Independência.

Pergunta: Qual a importância do patrimônio cultural do schützenverein na sua trajetória de vida? Fabiano Luís Schmidt: Eu nem consigo imaginar como teria sido minha vida sem a Sociedade Independência, a cultura do tiro e a alegria que as festas de rei e rainha proporcionam são coisas que eu busco passar adiante para as novas gerações. Uma grande motivação minha, atualmente, é ser uma referência para os mais jovens na prática do tiro esportivo e na manutenção das tradições, ser uma pessoa que eles vejam e possam se inspirar.

Manter as memórias dos antepassados e as tradições vivas são muito importantes, pois com elas mantemos vivos o jeito de ser dos colonizadores. Para mim, esse jeito de ser significa ter respeito pelos mais velhos, ser ético, ser correto, ser solidário e prestativo. Pois o voluntariado na sociedade sempre foi parte fundamental para manter tudo nela, seja fazer a estrutural predial do salão estar de pé, ajudando nas reformas necessárias, seja sendo voluntário para retransmitir o conhecimento cultural para os mais jovens.

Considerações finais

A trajetória de Fabiano Luís Schmidt transcende a mera prática esportiva; ela se consolida como um valioso elo de transmissão do patrimônio cultural imaterial do Vale do Itapocu.

No momento em que Jaraguá do Sul celebra seus 150 anos, rememorar as origens dos colonizadores — protegidas no passado pelas políticas imperiais de Dom Pedro II e pelo estabelecimento de terras por Emílio Carlos Jourdan — torna-se um exercício de justiça histórica.

Ao descender da nobre e resiliente etnia germânica dos suábios do Danúbio (Donauschwaben) e de imigrantes húngaros, povos que outrora compartilharam a vivência sob a monarquia dual da Áustria-Hungria, Fabiano carrega no sangue e no sobrenome a fusão dessas culturas que encontraram no solo catarinense um novo lar.

Sua dedicação ao tiro cultural e sua atuação como um multicampeão e Rei de Atiradores na Schützenfest renovam o compromisso comunitário com o voluntariado, a ética e o respeito intergeracional.

Sua história viva prova que os laços transatlânticos que uniram a Europa Central ao norte de Santa Catarina permanecem preservados, vibrantes e prontos para inspirar as futuras gerações pelos próximos séculos.

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Foto: Prefeitura de Jaraguá do Sul/Divulgação

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