AQUI TEM HISTÓRIA | Por: Ademir Pfiffer, historiador e memorialista. Exclusivo ao Portal Observa+ e Jornal do Vale do Itapocu
A história de um município não se faz apenas com a distância dos séculos, mas com a espessura dos atos daqueles que a moldaram. Ao celebrarmos os 150 anos de história de Jaraguá do Sul — fruto frutificado da visão e da desbravada empreitada de Emílio Carlos Jourdan —, é imperativo olhar para o arco temporal que une o fundador ao cidadão que deu voz e alma lírica a essa terra: Rodolfo Francisco Hufenüssler.
Se Jourdan traçou os contornos geográficos e administrativos da Colônia Jaraguá a partir de suas raízes em Namur, Bélgica, foi com figuras da estirpe de Rodolfo Hufenüssler que essa terra encontrou sua densidade moral, econômica e cultural.
Ao completarmos também 51 anos de vigência cívica do Hino de Jaraguá do Sul (instituído em 1975), cujos versos nasceram da pena de Seu Rodolfo, somos convidados a refletir sobre o duplo legado que sustenta o município: o ato de fundar o espaço físico e o ato de elevar esse espaço à condição de comunidade consciente de si mesma.
Memória e Patrimônio: Os Pilares de Emílio Carlos Jourdan e Rodolfo Hufenüssler
Para compreender o presente de Jaraguá do Sul, é preciso resiliente exercício de memória e salvaguarda patrimonial. Emílio Carlos Jourdan, concessionário das terras da Princesa Isabel e do Conde d’Eu, desbravou a região em 1876 enfrentando a densidade da mata atlântica e os desafios de uma colonização planejada.
Seu esforço desbravador criou as bases materiais e territoriais onde milhares de descendentes de imigrantes — entre eles as famílias que depois estruturariam a economia local — puderam fincar suas raízes.
Passado quase um século da fundação oficial, Rodolfo Hufenüssler emergiu como o herdeiro moral e o realizador prático desse projeto de civilização. Enquanto Jourdan abriu os caminhos na floresta, Hufenüssler ajudou a pavimentá-los com a solidez da indústria (através das Indústrias Reunidas Jaraguá, embrião da DR Aromas & Ingredientes), com o voluntariado hospitalar e institucional, e com a preservação intransigente da identidade cultural e germânica.
Se Jourdan estruturou o território, Hufenüssler estruturou o espírito comunitário. Ambos compartilharam da mesma tônica: a abnegação em prol do coletivo, abdicando do exibicionismo pessoal em favor de obras duradouras.
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O Cidadão, o Poeta e a Canção: O Hino de Jaraguá do Sul aos 51 Anos
A sintonia entre o passado fundador e a poesia cívica encontra expressão máxima no Hino de Jaraguá do Sul, cuja letra completou 51 anos de constante presença no imaginário coletivo da sociedade jaraguaense (Lei Municipal nº 564/1975). Quando Rodolfo Hufenüssler escreveu:
Entre montes te vejo engastada,
Marginando corrente prateada…
Vibra um povo querendo progresso,
Crescimento, trabalho e sucesso.
Ele descreveu a própria paisagem que Emílio Carlos Jourdan avistou ao mapear o vale cortado pelos rios. O hino não é apenas uma peça musical; é o testamento espiritual de Hufenüssler, sintetizando o esforço daqueles que transformaram vales inóspitos em um polo vibrante de indústrias, cultura e dignidade humana.
A menção ao “povo alegre e varonil” e à “indústria a todo vapor” ecoa diretamente a simbiose entre o pioneirismo do século XIX e a consolidação econômica do século XX, liderada por famílias e empresários que nunca perderam de vista o brio e a ética do trabalho.
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O Legado Conjunto: O Que Nos Deixaram?
O patrimônio deixado por Emílio Carlos Jourdan e Rodolfo Francisco Hufenüssler forma uma herança indivisível estruturada em três dimensões:
A Coragem Realizadora (O Trabalho e o Progresso): Jourdan arriscou sua visão e competência técnica na fundação da colônia; Hufenüssler expandiu essa visão transformando uma iniciativa familiar em um motor industrial global e mantendo viva a engrenagem econômica do município.
A Solidariedade Institucional (O Voluntariado): Ambos entenderam que o crescimento sem coesão social é estéril. Enquanto Jourdan administrava os rumos iniciais da colonização, Hufenüssler dedicou décadas de sua vida aos hospitais (Jaraguá e São José), à Acijs, à SCAR e ao associativismo, provando que o verdadeiro cidadão serve à comunidade sem exigir holofotes.
A Identidade e a Memória (A Cultura): Ao preservarem registros, fundarem o Centro de Cultura Alemã e escreverem a crônica e os hinos da cidade, garantiram que as gerações futuras soubessem de onde vieram, respeitando as tradições germânicas e o mosaico étnico que compõe Jaraguá do Sul.
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Como Honrar, Respeitar e Viver Esse Legado nos Princípios de Valores e Respeito?
Para que os 150 anos de história iniciados por Jourdan e os 51 anos de eco cívico proporcionados pelo hino de Hufenüssler não se transformem em meras palavras mortas em placas comemorativas, é preciso converter seu legado em prática social e cultural diária. Isso se faz através de caminhos muito claros:
Educação Patrimonial e Cívica nas Escolas: É fundamental que as novas gerações conheçam detalhadamente quem foram Emílio Carlos Jourdan, Rodolfo Hufenüssler e tantas outras figuras que construíram a cidade. Ensinar a história local e cantar o hino compreendendo o peso de cada verso (“Pela terra que é nossa e que amamos”) desperta o verdadeiro pertencimento.
Preservação Ativa do Patrimônio Arquivístico e Arquitetônico: Honrar a memória de Jourdan e Hufenüssler exige proteger os bens culturais que restaram — as casas enxaimel, os monumentos, os arquivos históricos, os museus (histórico e industrial) e os espaços de convivência comunitária (como as sociedades de tiro cultural e os clubes esportivos). Abandonar o patrimônio é destruir a própria identidade.
Resgate do Voluntariado e da Ética Cidadã: Hufenüssler destacou-se por sua discrição e pelo trabalho voluntário em prol dos mais necessitados e das instituições de saúde e cultura. Respeitar esse legado significa reavivar o senso de comunidade, combatendo o individualismo e incentivando a participação ativa nos conselhos municipais, nas associações de bairro e nas entidades associativista e de defesa do patrimônio histórico-cultural.
Desenvolvimento com Responsabilidade e Sustentabilidade: O progresso cantado no hino e buscado desde a fundação da colônia deve respeitar a ecologia do vale, os rios que marginam a cidade e a qualidade de vida das pessoas. Crescer com sucesso exige ética ambiental e respeito à dignidade humana.
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Considerações Finais
Emílio Carlos Jourdan e Rodolfo Francisco Hufenüssler são os pontos nevrálgicos de uma mesma linha do tempo: a epopeia de Jaraguá do Sul. O primeiro deu o primeiro passo na terra virgem; o segundo cantou e consolidou a maturidade desse povo em versos e obras de abnegação. Honrá-los significa assumir a responsabilidade de ser guardião da nossa própria história — garantindo que o progresso econômico caminhe de mãos dadas com a justiça social, a preservação do patrimônio cultural e o amor intransigente por esta terra engastada entre montes.
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Fontes de Referências
Prefeitura Municipal de Jaraguá do Sul. Lei Municipal nº 564, de 1975 (Instituição do Hino Oficial de Jaraguá do Sul, com letra de Rudolpho Francisco Hufenüssler e melodia de Alcesti Berri).
Jornal do Vale. Matéria jornalística: “Jaraguá do Sul se despede de Rodolfo Hufenüssler aos 98 anos de idade”.
Documentação Histórica Regional: Registros sobre a fundação de Jaraguá do Sul por Emílio Carlos Jourdan (1876) e sua trajetória como concessionário de terras da Colônia Jaraguá.
Acervo Institucional Local: Registros da atuação comunitária e empresarial de Rodolfo Hufenüssler junto à Acija, Hospitais locais, SCAR e Centro de Cultura Alemã.
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