Por Ademir Pfiffer (historiador)
No dia 28 de junho de 2026, o Clube Esportivo, Recreativo e Cultural Nacional (C.E.R.C. Nacional), fundado em 4 de novembro de 1973, realizou mais uma edição de sua tradicional Festa de Rei e Rainha, reunindo associados, famílias e visitantes em um dia marcado pelo espírito comunitário, pela preservação das tradições e pelo fortalecimento da identidade cultural dos descendentes de imigrantes alemães e pomeranos da região do alto da Serra do Mar. Situado na comunidade de Rega Alta, em posição privilegiada na divisa entre Jaraguá do Sul e Pomerode, o clube ocupa um espaço geográfico carregado de significado histórico.
A localidade integra uma antiga área de circulação das famílias colonizadoras estabelecidas inicialmente na Colônia Blumenau, idealizada por Hermann Bruno Otto Blumenau (1819-1899). Médico, químico, farmacêutico e visionário, Blumenau concebeu um projeto de colonização fundamentado na pequena propriedade rural, no trabalho familiar, na educação e na organização comunitária, princípios que moldaram a ocupação do Vale do Itajaí e influenciaram diretamente as comunidades que posteriormente alcançaram as encostas da Serra do Mar.
Das origens da Colônia Blumenau à formação de Pomerode
Quando Hermann Blumenau fundou, em 1850, a Colônia São Paulo de Blumenau, o território abrangia extensas áreas que atualmente correspondem a diversos municípios catarinenses. Entre elas encontrava-se Rio Testo, núcleo colonial que, décadas mais tarde, consolidaria sua identidade própria, tornando-se o atual município de Pomerode, emancipado em 1959.
A presença de famílias oriundas da Pomerânia, do norte da Alemanha e de outras regiões germânicas fez surgir uma sociedade caracterizada pela cooperação, pela religiosidade, pelo associativismo e pela valorização das manifestações culturais. Essas características ultrapassaram os limites administrativos e alcançaram comunidades serranas como Rega Alta, consolidando uma rede de relações entre Pomerode e Jaraguá do Sul que permanece viva até os dias atuais.
Rega Alta: um território de integração cultural
Localizado nas encostas da Serra do Mar, o C.E.R.C. Nacional representa muito mais que uma associação recreativa. Constitui-se em um espaço de integração entre comunidades rurais dos dois municípios, mantendo estreitos vínculos com os clubes 25 de Julho e Primavera, de Pomerode, e com as sociedades de tiro Alvorada e Aliança, de Jaraguá do Sul.
Essa convivência permanente demonstra que a cultura tradicional não reconhece fronteiras administrativas. Ao contrário, fortalece uma identidade regional compartilhada pelos descendentes de alemães e pomeranos — estes últimos pertencentes ao universo cultural eslavo-germânico — que preservam costumes, culinária, música, língua e formas de organização comunitária herdadas dos antepassados.
O simbolismo da Festa de Rei e Rainha
- A edição de 2026 confirmou a vitalidade dessa tradição.

Sob a coordenação protocolar de Sigold Koenig, realizou-se a tradicional busca das majestades, percorrendo os arredores da sede social em um típico dia de inverno ensolarado. A cerimônia, cuidadosamente preservada, representa o reconhecimento público daqueles que simbolizam a honra, o compromisso e a dedicação ao clube. Foram homenageadas as majestades: Rei: Rudhardt Borchardt; Rainha: Lidia Butzke; 1º Cavalheiro: Lidio Utech; 1ª Princesa: Janice Thomsen; 2º Cavalheiro: Ireno Toewe e 2ª Princesa: Vitória Thomsen.
Muito além de um ato festivo, a escolha das majestades simboliza a continuidade das antigas sociedades de tiro germânicas, nas quais o Rei e a Rainha representam liderança, mérito, responsabilidade e espírito comunitário. Outro aspecto marcante foi o uniforme dos associados, estampando o orgulho de pertencimento às raízes germânicas e pomeranas e reafirmando o compromisso coletivo com a preservação do patrimônio cultural imaterial.
Bolão de calha, gastronomia e música: patrimônios vivos
Entre as manifestações preservadas pelo clube destaca-se o bolão de calha, modalidade de patrimônio cultural trazida pelos imigrantes do Hemisfério Norte, cuja prática permanece associada ao convívio social, ao lazer e ao fortalecimento dos vínculos comunitários.
A gastronomia constituiu outro dos grandes atrativos da programação. Sob a liderança de Luise Siewerdt Marcelino e sua equipe, foi servido um almoço inspirado na culinária tradicional da imigração, reunindo aipim frito preparado no tradicional “beco”, carnes grelhadas, carnes de panela, saladas e outras receitas transmitidas entre gerações, preservando sabores que fazem parte da memória alimentar das famílias colonizadoras.
Encerrando a programação, a animação ficou por conta da Banda Os Futuristas, fundada em Ijuí (RS) e atualmente radicada no Vale do Itajaí. Com mais de seis décadas de trajetória, o grupo tornou-se referência na interpretação da música tradicional germânica, destacando-se pelo uso do bandoneon e pela capacidade de despertar nostalgia, emoção e pertencimento cultural. Suas apresentações em municípios como Blumenau, Pomerode e Jaraguá do Sul consolidam sua contribuição para a valorização da herança musical dos imigrantes.
Considerações finais
A Festa de Rei e Rainha do C.E.R.C. Nacional reafirma que as associações comunitárias continuam exercendo papel fundamental na preservação da memória coletiva. Em Rega Alta, entre a Serra do Mar e o Vale Europeu catarinense, permanece vivo o legado iniciado por Hermann Bruno Otto Blumenau e fortalecido pelas sucessivas gerações de colonizadores alemães e pomeranos.
Mais do que celebrar uma tradição recreativa, o evento evidencia a permanência de valores como solidariedade, cooperação, respeito às raízes familiares e compromisso com o patrimônio cultural. Ao reunir diferentes sociedades de tiro, clubes vizinhos e dezenas de famílias, o C.E.R.C. Nacional demonstra que a identidade regional continua sendo construída pela convivência, pelo associativismo e pela transmissão intergeracional dos costumes, constituindo um exemplo significativo da riqueza cultural em Santa Catarina.
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