Por: Ademir Pfiffer – historiador. Exclusivo ao Portal Observa+ e Jornal do Vale do Itapocu
A entrevista inicia resgatando a formação familiar de Fritz Rotermund e a maneira como seu legado foi preservado ao longo das gerações. Roberta Rotermund Baratto destaca que, desde a infância, havia profundo respeito pelo trabalho desenvolvido por seu avô, lembrando que sua atuação sempre ocorreu em conjunto com importantes lideranças como Leopoldo Petry, Padre Balduíno Rambo, Bruno Born e A. J. Renner, responsáveis pela consolidação do Movimento 25 de Julho.
Ao recordar a trajetória familiar, ressalta ainda a importância do acervo preservado pelo Museu Histórico Visconde de São Leopoldo e pelo Arquivo Histórico da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, onde permanecem documentos, fotografias e correspondências que testemunham o compromisso da família Rotermund com a educação, a cultura e a integração dos descendentes de imigrantes à sociedade brasileira.
- Roberta, o sobrenome Rotermund carrega um peso histórico muito forte no Sul do Brasil. Na sua infância e juventude, como a figura do seu avô, Fritz Rotermund, era retratada nas conversas de família? Havia a consciência de que ele foi um divisor de águas na afirmação cultural teuto-brasileira?
Na família havia não só consciência, como muito respeito a todos que se empenhavam nesse ideal. Quero lembrar aqui, que Fritz não esteve sozinho à frente das comemorações do centenário da imigração alemã no Rio Grande do Sul (1924). Contou com decisiva parceria de Leopoldo Petry (1882-1966) – professor, escritor e político, primeiro prefeito de Novo Hamburgo (1927) e, depois da II Guerra Mundial, envolvido na luta pelos direitos dos teuto-brasileiros.
A partir de 1946, Fritz e Petry contaram, ainda, com o forte apoio do Padre Jesuíta Balduino Rambo (1905-1961) – especialmente na arrecadação de donativos para a ‘Campanha pela Europa Faminta’ – e do médico e político Bruno Born (1903-1973), que, em 1948, proferiu histórico discurso na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul em apoio às famílias teuto-brasileiras. Exerceu dois mandatos como prefeito de Lajeado, pujante cidade do Vale do Rio Taquari.
Então, se Fritz chegou a ser cognominado “Pai do 25 de Julho” pela sua liderança, é necessário lembrar que não esteve sozinho. Já antes da II Guerra o entusiasmo pela preservação dos bens culturais chegou a Santa Catarina, a São Paulo e ao Rio de Janeiro. Na então Capital Federal, infelizmente, serviu de plataforma para propagar os ideais nacional-socialistas – o que levou Fritz a romper com seus pares locais e repudiar abertamente essa atitude.
Convivi pouco com meu avô, pois faleceu quando eu era criança. Recentemente conheci mais a fundo o legado do Fritz, quando o sobrinho neto, Dankwart Bernsmuller, traduziu do alemão sua autobiografia “I+C+H”, escrita em Ilha Redonda em abril de 1959, hoje Palmitos (SC ).
- O pai de Fritz, o Pastor D. Dr. Wilhelm Rotermund, atuou fortemente na imprensa e na organização comunitária a partir de São Leopoldo (RS). A família conserva algum acervo pessoal dele — como cartas, diários, fotografias ou sermões da época — que demonstre a sua preocupação com a preservação da identidade dos imigrantes?
Sim, as principais preocupações do Pastor foram a organização das comunidades evangélico-luteranas (hoje IECLB-Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil) e a escolaridade bilíngue dos alunos das escolas comunitárias. Isso foi um dos motivos para criar a editora e publicar dezenas de livros didáticos. Demonstra sua preocupação não só com a preservação da identidade dos imigrantes e descendentes, mas, muito mais, com sua integração na Terra que os acolheu. O acervo do legado escrito do Pastor está dividido entre o Arquivo Histórico da IECLB e o Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, ambos em São Leopoldo.
O acervo da Família Rotermund se encontra no “Museu Histórico Visconde de São Leopoldo”, que possui o mais importante acervo de objetos, imagens e documentos referentes à colonização alemã no Brasil.
- Mudar-se para Jaraguá do Sul, uma cidade com forte identidade ligada à imigração e colonização trouxe para você algum sentimento de reencontro com o próprio legado do seu avô?
Com certeza!
De repente, morar em Jaraguá do Sul deixou de ser coincidência e passou a parecer herança.
- Seu avô foi o grande idealizador do “25 de Julho” como o “Dia do Colono”, buscando valorizar o trabalhador da terra e a cultura germânica. Na visão da família, qual era o principal objetivo dele ao tentar unificar as colônias do Sul sob essa mesma efeméride na década de 1920?
É preciso lembrar que, a partir do final da década de 1910, Fritz percorria a área de colonização alemã a cavalo para oferecer os produtos da editora familiar nas casas comerciais e nas paróquias. Dotado de fina sensibilidade nas relações interpessoais, logo se apercebeu das angústias da população interiorana quanto ao desprezo e à exploração econômica que sofria por parte dos intermediários luso-brasileiros na hora de venda de seus produtos.
Isso certamente contribuiu para desenvolver a percepção de que a força estaria na união de todos em torno de seus valores comuns e tradicionais: preservação da língua e da fé, da honestidade e perseverança no trabalho e, por outro lado, do associativismo como as festas populares, o canto e a dança.
Era preciso mexer com o orgulho das pessoas e isso Fritz, Petry e o Padre Rambo conseguiram fazer nas décadas de 1920 e 30 ao unir os organismos existentes – as ligas de cantores, as associações de professores católicos e evangélicos, a Liga das Uniões Coloniais, a Associação Católica, os sínodos evangélicos (o Rio-Grandense e o dos Estados de Santa Catarina e Paraná), a Federação de Ginastas e a Federação dos Clubes de Porto Alegre – em um ‘Grupo de Trabalho 25 de Julho’.
A conjugação de esforços levou a que essa data fosse decretada como feriado estadual no Rio Grande do Sul a partir de 1934 e, em Santa Catarina e no Paraná, a partir do ano seguinte. Era o ‘Dia do Colono’, ‘nosso dia’, como diziam no interior. No entanto, habilmente, Fritz dizia tratar-se de uma festa histórico-cultural pelo início da imigração sistemática no Brasil – não só alemã –, o que justificava a comemoração em todas as cidades sulinas e a participação de autoridades civis e militares.
Com a decretação do Estado Novo (novembro de 1937), as atividades do Grupo de Trabalho são suspensas – como, aliás, de todas as associações culturais, religiosas, escolares, sociais ‘alemãs’ e ‘italianas’.
O ‘Movimento 25 de Julho’ ressurge no pós-guerra – essa denominação só foi usada após o conflito. Já em 1945, Fritz passou a receber cartas de pessoas que solicitavam que o reavivasse.
Martirizava-se por considerar uma traição aos antepassados caso não o fizesse e, por impulso, perguntou ao empresário A.J.Renner se deveria recriar o Movimento, ao que este lhe respondeu ser seu dever fazê-lo. Imediatamente lhe colocou 10 mil contos de réis à disposição que ele coletaria entre amigos – entre os quais os deputados estaduais Bruno Born e Wolfram Metzler. O discurso proferido na Assembleia Legislativa por Born, em 1948, ao qual já nos referimos, foi outro estímulo decisivo. A população de origem germânica cria coragem e reabre os clubes e sociedades recreativas. As gráficas retomam a impressão de folhetos e periódicos em alemão.
Os pastores protestantes voltam a oficiar cultos nesse idioma e, na área de colonização italiana, voltam festas religiosas com celebrações em italiano. Novas lideranças emergem, por exemplo, na pessoa de Egídio Michaelsen (de Nova Petrópolis) que foi deputado federal e, depois, figura marcante do Poder Executivo como Ministro da Agricultura no governo de Juscelino Kubitschek, de 1956 a 1960. Embora o dia 25 de julho não fosse mais feriado, essa data voltou a ser comemorada. Discursos e falas eram em alemão e italiano.
Nessa nova fase, Fritz conseguiu entusiasmar importantes lideranças como, por exemplo, os industrialistas Benno Mentz e o já mencionado A.J.Renner (ambos de Porto Alegre), Kurt Hering (de Blumenau), o Pastor Erich Knaepper, o Professor Theo Kleine e os deputados estaduais do Rio Grande do Sul Wolfram Metzler e Siegfried Heuser. Em São Paulo, Helmut Andrä (proprietário da livraria ‘Bücherstube’ – ‘Sala de Leitura’, no bairro Brooklyn) também era entusiasta.
- O empreendedor do ramo gráfico Fritz Rotermund defendia o conceito de Deutschtum (a preservação da cultura e língua alemãs), mas sempre focando na contribuição dos colonos para o progresso do Brasil. Como você avalia esse equilíbrio que ele propunha entre orgulho ancestral e pertencimento à nova pátria?
Inicialmente, quero lembrar que a expressão ‘Deutschtum’ – Germanidade – era um conceito usado em muitos países e na própria Alemanha anterior à II Guerra Mundial. Para meu avô, realmente era esse equilíbrio que o movia – até por ser tradição herdada dos pais: manter a língua e as tradições, mas sempre com a visão de se integrar no país e não querer criar “enclave estrangeiro” e, muito menos, a partir especialmente de 1933, de identificar-se com a ideologia nacional-socialista alemã.
- Em 1951, o prefeito de Jaraguá do Sul, Artur Müller, sancionou a Lei nº 23, escolhendo o 25 de julho como a data oficial de fundação do município, mesmo sabendo que o marco documental (o Sábado de Aleluia de Jourdan) era em abril. Como você se sente ao saber que a tese criada pelo seu avô foi a “âncora simbólica” usada pela classe política local para institucionalizar o nascimento da cidade?
Uma grande surpresa saber que o trabalho do meu avô Fritz ajudou a construir a história oficial de Jaraguá do Sul. É como se o destino tivesse unido a minha história a dele novamente.
- Os historiadores apontam que a escolha do 25 de julho em Jaraguá do Sul serviu para reabilitar o orgulho da comunidade após os traumas da Campanha de Nacionalização de Vargas. Você acredita que, de certa forma, o espírito da proposta original do seu avô (de proteger a identidade cultural) cumpriu essa função aqui no Vale do Itapocu?
Sim, perpetuando até os dias de hoje.
8. Ironias e caminhos da história: o criador da data era do Rio Grande do Sul, a lei que a adotou é de 1951, e hoje, no ano do Sesquicentenário de Jaraguá do Sul (2026), uma neta dele reside exatamente aqui. Para você, isso é uma feliz coincidência geográfica ou o destino amarrando as pontas dessa narrativa histórica?
Por ironia do destino, casei com um jaraguaense e resido aqui. Descobri que alguma conexão já existia antes de me mudar.
- Como mulher, mãe e guardiã dessa linhagem, como você transmite essa história para as próximas gerações da sua família? Seus filhos e familiares têm dimensão de que o aniversário da cidade onde vivem possui as digitais intelectuais do seu antepassado?
Confesso que sempre fiquei intrigada que a data de fundação de Jaraguá em 1876 era justamente no dia 25 julho: a mesma data da chegada dos primeiros imigrantes alemães no Brasil. Muita coincidência!
Agora, depois de tantos anos, foi esclarecida minha dúvida da data baseado em fatos e dados históricos e ainda, ficando emocionada que o fruto do trabalho do meu avô repercutiu pela escolha da data oficial justamente na cidade onde resido. Meus familiares ficaram bastante surpresos com essa conexão, só lastimo não poder compartilhar essa novidade com meus pais e irmã, já falecidos.
- Jaraguá do Sul celebra seus 150 anos em 2026 debatendo seus marcos fundacionais — o esforço técnico/braçal de Jourdan em abril e a força identitária do colono em julho. Na sua opinião, como moradora e descendente dessa história, essas duas datas podem coexistir pacificamente na memória do cidadão jaraguaense?
Sim, esta coexistência pacífica já existe há 75 anos e agora com um histórico documentado do motivo pela escolha da data oficial, tornando pública a história justamente no Sesquicentenário da cidade.
- Se o Fritz Rotermund pudesse caminhar pelas ruas da Jaraguá do Sul de hoje, uma potência industrial que ainda preserva suas festas de tiro, sociedades e o amor à terra no 25 de julho, o que você acha que ele diria sobre o fruto do seu legado?
O Opa Fritz ficaria encantado com Jaraguá do Sul: admiraria os prédios históricos remanescentes; o acervo do museu municipal; a realização das festas tradicionais, a existência de vários grupos de danças, corais, orquestras, bandinhas; a culinária alemã e da cidade ser organizada, limpa e florida.
Mas tudo isso é possível devido a dedicação do Poder Público e das empresas parceiras que proporcionam a comunidade eventos que mantém viva a valorização e a memória dos seus colonizadores.
Em Jaraguá do Sul, vivo a sincronicidade com a reflexão do Opa Fritz:
“ Somente é feliz um povo que sabe perpetuar na posteridade as tradições e os costumes recebidos dos seus antepassados”.
Colaboração: Dankwart Bernsmuller com as informações históricas documentadas.
As considerações finais da entrevista com Roberta Rotermund Baratto revelam uma profunda sincronicidade entre sua história familiar e Jaraguá do Sul. Para o marco do sesquicentenário da cidade (2026), a entrevista é de suma importância, pois elucida como o legado de seu avô, Fritz Rotermund — idealizador do “Dia do Colono” (25 de julho) —, serviu de âncora simbólica para a institucionalização da data oficial de fundação do município pela Lei nº 23/1951. O relato valida a coexistência pacífica das memórias locais e reconecta o passado cultural ao presente, resgatando o orgulho identitário.
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