AQUI TEM HISTÓRIA | or: Ademir Pfiffer – historiador. Exclusivo ao Portal Observa+ e Jornal do Vale do Itapocu
Ao se aproximar do marco histórico de seu sesquicentenário (150 anos), Jaraguá do Sul vive um momento de profunda reflexão sobre o legado que escolheu preservar e a cidade que projeta para o futuro. No centro dessa engrenagem de salvaguarda da identidade local, encontra-se o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Cultural, Arqueológico, Artístico e Natural (COMPHAAN), que há 32 anos detém a missão legal e moral de gerenciar os bens da comunidade.
O exercício dessa função por parte de conselheiros e suplentes é inaugurado por um compromisso público solene, uma jura de fidelidade às raízes do município. Contudo, a proximidade dos 150 anos expõe uma dura realidade: a falta de responsabilidade ao não se cumprir na íntegra o juramento de posse gerou fraturas irreparáveis na memória coletiva, transformando uma trajetória de governança em um cenário de graves contradições e omissões deliberativas.
AQUI TEM HISTÓRIA | 32 anos do COMPHAAN de Jaraguá do Sul: entre o compromisso do juramento e osdesafios da preservação do patrimônio histórico, cultural e natural no sesquicentenário. Participe do nosso grupo de WhatsApp e acompanhe as principais notícias do País.
O Juramento de Posse e a Quebra de Responsabilidade no Sesquicentenário
O ato de investidura de qualquer membro do COMPHAAN exige a declaração do compromisso oficial: “Prometo cumprir com zelo, dedicação e ética as atribuições do cargo de conselheiro, defendendo e preservando o patrimônio histórico, cultural e natural do município de Jaraguá do Sul, em conformidade com as leis e regulamentos vigentes.”
No horizonte do sesquicentenário, a lealdade a essas palavras deveria ser o indicador máximo de sucesso da gestão pública. No entanto, o que a história testemunha em recortes de sua trajetória é a falta de responsabilidade individual e coletiva de agentes que ignoraram esse juramento.
Ao flexibilizar critérios técnicos e ceder a pressões de setores privados e imobiliários, o conselho muitas vezes esvaziou o sentido ético do cargo. Deixar de cumprir essa promessa na íntegra significa desonrar o pacto com as gerações passadas que ergueram a cidade e faltar com o compromisso diante da sociedade que, justamente no ano de seu jubileu de 150 anos, busca se enxergar nos marcos de sua própria história.
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As Consequências para o Conjunto do Patrimônio Histórico Local
A “ignoração” sistemática ou pontual desse indicador ético não se limitou a debates burocráticos; ela gerou consequências práticas devastadoras para o patrimônio de Jaraguá do Sul:
* Cicatrizes na Paisagem Urbana: A anuência com o destombamento e a consequente derrubada de casas históricas, edificações no padrão teuto-brasileiro e estruturas em enxaimel apagaram testemunhos físicos da colonização, criando vazios de memória que nenhuma celebração efêmera de 150 anos pode reconstruir.
* Invisibilidade das Matrizes Étnicas (Patrimônio Imaterial): A inércia em não gerar políticas públicas e inventários para o patrimônio intangível resultou no silenciamento de saberes, fazeres, celebrações e manifestações das diversas etnias (germânicos, poloneses, italianos, afrodescendentes e húngaros) que moldaram o território, deixando a tradição oral vulnerável ao esquecimento.
* Descaracterização de Territórios Tradicionais: A ausência de registros paisagísticos e de proteção a territórios de comunidades tradicionais fragiliza a integridade cultural de regiões históricas, ameaçando o equilíbrio entre o ambiente natural (Mata Atlântica) e o patrimônio edificado.
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Evolução Normativa vs. Compromisso Ético
Embora a estrutura do conselho tenha sido reformada ao longo das décadas para ganhar contornos mais técnicos e paritários, a eficácia da lei sempre dependeu da postura ética de quem a executa, como demonstra o paralelo entre seus principais marcos regulatórios:

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Considerações Finais
O sesquicentenário de Jaraguá do Sul não deve ser apenas uma data de comemorações festivas, mas sim, um tribunal da memória local. Os 32 anos de trajetória do COMPHAAN provam que a existência de decretos, cadeiras paritárias e organogramas técnicos é inócua se não houver um compromisso moral inegociável com o juramento de posse.
As perdas arquitetônicas sofridas e a dívida histórica com o patrimônio imaterial e as comunidades tradicionais são o preço cobrado pela falta de responsabilidade de gestões que relativizaram a ética em nome do progresso predatório. Para os próximos anos, a sobrevivência da identidade jaraguaense exige que cada conselheiro e suplente resgate a lealdade à sua promessa de posse, garantindo que o patrimônio remanescente — como o precioso Rio da Luz — seja protegido não como um estorvo ao desenvolvimento, mas como a alma viva de uma história de 150 anos que merece continuar sendo contada.
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