Ademir Pfiffer – Historiador, para o Jornal do Vale do Itapocu/Portal Observa+
A história da imigração em Santa Catarina é marcada por narrativas de resistência e perseverança, e a comunidade suábio-húngara de Jaraguá do Sul, no Vale do Itapocu, é um notável exemplo dessa trajetória. Este artigo, fundamentado na pesquisa histórica de Ademir Pfiffer, traça o percurso dessa etnia, desde as condições de vida na Europa até a integração e a preservação cultural no Brasil. O texto culmina com o recente e significativo reconhecimento do governo da Hungria, que homenageou o casal Roberto e Cláudia Kitzberger, expoentes da cultura húngara local, em um evento que celebra a memória e a identidade.
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A Diáspora e a Construção de uma Identidade
As Origens e a Chegada (1891)
Os suábio-húngaros, oriundos da Província da Hungria (então parte do Império Austro-Húngaro), viviam em condições de extrema pobreza e indigência. O acordo de emigração estabelecido em 1870, após a visita de Dom Pedro II à Europa, abriu caminho para que, em 1891, um contingente significativo dessa etnia partisse rumo à Colônia do Jaraguá.
A chegada ao Sul do Brasil inseriu o grupo no movimento do pangermanismo, ao lado de alemães e pomeranos, e sua integração inicial se deu pela posse da terra, seguindo a política agrária do Império que visava a difusão do minifúndio. A terra e a religião tornaram-se os pilares de sua unidade, manifestada na veneração a santos padroeiros como Santo Estevão, São Pedro e a Santíssima Trindade.
O Recorte de Memórias: A Diáspora da Era Vargas
O período mais dramático da trajetória dessa comunidade em solo brasileiro ocorreu durante a era Vargas e a Segunda Guerra Mundial. A política de nacionalização e a perseguição ao pangermanismo, intensificadas pela atuação dos “Inspetores de Quarteirão” (agentes repressores do Estado), forçaram a primeira grande diáspora interna. Parte da população suábio-húngara migrou para o Meio Oeste do Paraná em busca de terras férteis e de um ambiente menos repressivo.
Em Jaraguá do Sul, o grupo também vivenciou a microdiáspora, um movimento migratório interno para os territórios como Schröderstrasse (Schroeder/SC) e Hansa (Corupá/SC). Nesse contexto de isolamento e busca por controle da propriedade, práticas como a endogamia eram utilizadas para manter a posse da terra dentro do grupo familiar, reforçando a importância da propriedade privada como um valor central.
A Transformação Social: Do Campo à Fábrica
A partir dos anos 1950, com o advento da industrialização em Jaraguá do Sul (setores de bebidas, têxteis e alimentos), a nova geração suábio-húngara iniciou uma profunda transformação social. O trabalho fabril substituiu o rural, levando à migração para o entorno urbano e, em muitos casos, à busca por empregos em Joinville (especialmente na empresa Tupy), com o uso da estrada de ferro para o deslocamento semanal.
Essa mudança alterou o paradigma familiar: a família, antes numerosa para o trabalho na roça, reduziu o número de filhos e passou a priorizar a educação. Outro agente de transformação foi o Serviço Militar Obrigatório (SMO), que expôs os jovens a novos centros urbanos (Rio de Janeiro, Curitiba, Joinville), promovendo uma nova visão de mundo e sociedade. O futebol, em particular, tornou-se um novo espaço de sociabilidade e integração, com a fundação de clubes como o Garibaldi F.C. e o Botafogo F.C., e a ascensão de famílias como a Papp no cenário esportivo local.
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Atores Sociais e o Reconhecimento Oficial: O Casal Kitzberger e Outros Guardiões da Memória
Atualmente, a salvaguarda desse patrimônio identitário é liderada por atores sociais dedicados, como o casal Roberto e Cláudia Kitzberger. O reconhecimento oficial do governo da Hungria, em nome do Presidente Tamás Sulyok, evidencia a relevância de seu trabalho, materializada na entrega da condecoração “Cruz de Mérito de Ouro Húngara”, concedida por meio do corpo da representação consular.

Academia e Cerimonial: A Força da Pesquisa e da Diplomacia
A homenagem destacou a importância da pesquisa acadêmica e da representação diplomática na preservação da memória. O cerimonial de abertura foi conduzido por Sidnei Marcelo Lopes, autor da dissertação de mestrado “Nós Somos Húngaros: História, cultura e tradição húngara em Jaraguá do Sul/SC” (UNIVILLE).

O trabalho de Katalin Óry Kovács, pesquisadora que realizou estudos antropológicos sobre a preservação da identidade dos imigrantes húngaros e “suábios” na região, também foi ressaltado.
A presença desses atores sublinha a profunda conexão entre a academia, a diplomacia e a comunidade local.
A Homenagem Presidencial
O ápice desse trabalho de preservação foi o reconhecimento oficial pelo governo da Hungria, em nome do presidente Tamás Sulyok. A homenagem foi organizada pelo Consulado Geral da Hungria em São Paulo, com a presença da Cônsul-Geral Zsuzsanna László.

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A Voz da Pátria-Mãe: O Discurso da Cônsul-Geral
Em seu discurso, proferido durante a sessão de homenagem, a Cônsul-Geral destacou a resiliência e a identidade húngara na diáspora, fazendo uma profunda reflexão sobre a história e a cultura do país. A Cônsul-Geral iniciou o discurso revelando o “pesadelo” húngaro: a preocupação com a sobrevivência da nação no “livro das nações” de Deus, dada a falta de argumentos de tamanho ou riqueza. A resposta, segundo ela, reside nos méritos históricos e culturais, citando: “Olhe, Senhor, para os nossos santos da dinastia Árpád, para a nossa grande vitória contra os otomanos em Nándorfehérvár, para János Neumann, pai do computador, para Ferenc Puskás, para os nossos campeões olímpicos, para os nossos vencedores do Prêmio Nobel e, Senhor, olhe também para 1956.” [2]

A Revolução de 1956, a “mais luminosa luta pela liberdade da história da humanidade”, é apresentada como um milagre que prolonga o direito de a Hungria figurar no livro divino, apesar do alto preço pago em vidas e refugiados. A Cônsul-Geral enfatizou, ainda, o papel fundamental da diáspora na manutenção da unidade nacional: “São eles, são vocês, os húngaros além-fronteiras, que mantêm – como a crosta do pão – nossa nação unida.” [2]

O discurso culminou com uma nota de orgulho e esperança, mencionando o segundo astronauta húngaro, Tibor Kapu, e o Nobel da Literatura com a obra de Krasznahorkai, e desejando coragem, força e fé, com o lema final: “Deus proteja a Hungria”.

Considerações Finais
A trajetória dos suábio-húngaros em Jaraguá do Sul é um testemunho da capacidade humana de manter a cultura viva em meio a adversidades históricas. O reconhecimento do casal Kitzberger pelo presidente Tamás Sulyok, e a eloquente homenagem da Cônsul-Geral Zsuzsanna László, não são apenas honrarias pessoais, mas uma validação da luta de toda uma comunidade para preservar sua herança. A memória, cuidadosamente registrada por historiadores como Ademir Pfiffer, é a base sobre a qual essa identidade continua a florescer, garantindo que a contribuição húngara permaneça uma parte inalienável da história de Jaraguá do Sul.
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Fonte Bibliográfica
[1] Pfiffer, Addemir. HUNGRIA – HOMENAGEM E JARAGUÁ. Documento base fornecido pelo usuário, com dados extraídos de seu blog Suábio-húngaro no Vale do Itapocu (http://suabiohungarovaleitapocu.blogspot.com/). [2] László, Zsuzsanna (Cônsul-Geral da Hungria em São Paulo). Discurso no Aniversário da Revolução de 1956. Texto apresentado durante a sessão de homenagem ao casal Kitzberger [HUNGRIAXJARAGUA.pdf]. [3] Informações sobre a homenagem a Roberto Kitzberger e a condecoração atribuída pelo Presidente Tamás Sulyok (referência à Cruz de Mérito de Ouro ou equivalente, concedida por mérito na preservação cultural da diáspora). [4] Lopes, Sidnei Marcelo. Nós Somos Húngaros: História, cultura e tradição húngara em Jaraguá do Sul/SC. Dissertação de Mestrado, UNIVILLE. [5] Óry Kovács, Katalin. Pesquisadora de estudos antropológicos sobre comunidades de origem húngara em Jaraguá do Sul.
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