
Ademir Pfiffer – Historiador, para o Jornal do Vale do Itapocu/Portal Observa+
A Sociedade de Atiradores Independência, localizada no histórico território de Jaraguazinho, em Jaraguá do Sul, representa um dos mais significativos núcleos de preservação das tradições pomeranas, alemãs e húngaras (donauschwaben) no Vale do Itapocu. A celebração anual do tiro-rei, realizada em 22 de novembro, reafirmou o papel das famílias descendentes desses grupos de imigrantes e colonizadores na construção de uma identidade local marcada por valores comunitários, intergeracionalidade, religiosidade, música e gastronomia típica.
Como defendia Aloísio Magalhães, o patrimônio cultural brasileiro “não é algo morto, mas um processo vivo, em constante recriação pelas comunidades que o praticam”. Em Jaraguazinho, essa visão se concretiza na continuidade das tradições germânicas, reinterpretadas pelas famílias que as mantêm vivas no presente.
A festa de tiro-rei da Sociedade Independência: Tradição pomerana, alemã e húngara em Jaraguazinho. Participe do nosso grupo de WhatsApp e acompanhe as principais notícias do País. Acesse: www.observamais.com.br
1.Heranças Étnicas e Identitárias em Jaraguazinho
A Festa de Rei e Rainha da Sociedade de Atiradores Independência evidencia a força das tradições pomeranas, alemãs e húngaras (donauschwaben) preservadas pelas famílias do território de Jaraguazinho. Na edição de 2025, o quadro de representantes da corte demonstra que a tradição é mantida pelas diferentes gerações, reforçando o vínculo com o schützenverein e com o patrimônio imaterial trazido pelos imigrantes da Europa Central.
A visão de Aloísio Magalhães ajuda a compreender esse fenômeno: para ele, “a identidade patrimonial se fortalece quando as comunidades se reconhecem em suas práticas e as recriam de forma autêntica”. É exatamente isso que ocorre em Jaraguazinho, onde famílias como Modro, Schmidt, Reinke e Günther mantêm viva a herança cultural, reafirmando diariamente que o patrimônio não é apenas lembrado — é vivido.
A rainha, Giovanna Modro Pacher, estudante do ensino médio na Divina Providência/Bom Jesus, representa a continuidade feminina da herança cultural dos atiradores. O rei, Matheus Modro Krueger, acadêmico de Engenharia de Software na Católica de Santa Catarina e profissional da Predita, exemplifica a integração entre formação superior, atividade profissional e compromisso com as tradições comunitárias.
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Compuseram ainda a corte:
1º Cavalheiro: Cláudio Ivair Schmidt, substituindo o titular Flávio Osmair Schmidt (Binho), que estava representando Jaraguá do Sul nos Jogos Abertos de Santa Catarina (JASC), em Chapecó, na modalidade tiro esportivo e olímpico.
1ª Princesa: Ináurea Reinke Schmidt, representada por **Patrícia Simone K. Schmidt, substituindo a titular ausente por participar dos *Jogos Abertos em Chapecó* na mesma modalidade.
2º Cavalheiro: Reiner Modro, avô, músico, veterano das festas de tiro-rei, ex-presidente do Clube Atlético Baependi e membro da Paróquia Luterana Apóstolo Pedro, uma figura-símbolo da memória viva da comunidade.
2ª Princesa: Lourdes Günther Modro, integrante de família comprometida com a salvaguarda da tradição do schützenverein.
A presença de substitutos devido às competições esportivas, aliada à participação de jovens estudantes e profissionais, demonstra que a tradição do tiro-rei permanece orgânica, intergeracional e profundamente enraizada nas famílias descendentes de pomeranos, alemães e donauschwaben que moldaram Jaraguazinho.
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2.Intergeracionalidade e Liderança Comunitária
Um ponto central da festa é a participação das gerações mais antigas, como o veterano Reiner Modro, cuja atuação como músico e líder comunitário simboliza a transmissão cultural contínua. A integração entre jovens — estudantes e trabalhadores — e idosos evidencia a força da herança familiar como pilar da identidade teuto-brasileira e pomerana no distrito.
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3.Música como Patrimônio Vivo
A programação musical da noite reforça a importância da música como patrimônio vivo entre os descendentes pomeranos, alemães e húngaros de Jaraguazinho. Os acordeonistas Rafael Petry, Anderson Töwe, Reiner (bandoneon) Modro abriram as festividades conectando repertórios tradicionais germânicos e rurais do Vale do Itapocu, demonstrando a continuidade das práticas musicais herdadas pelas famílias locais.
Às 20h, a apresentação do grupo Fridas de Taió, liderado por Denise Purnhagen, trouxe ao palco um momento de grande simbolismo histórico e afetivo. Denise é neta de Herman Purnhagen, imigrante que chegou ao município em 1924 trazendo consigo cultura musical (músico dos 7 instrumentos sonoros) e conhecimentos técnicos pioneiros. Em sua propriedade, em Três Rios do Sul, Herman instalou sistemas de dínamos para geração de energia elétrica, tornando-se referência comunitária e mestre inspirador de jovens como Werner Voigt, posteriormente figura essencial no desenvolvimento elétrico e industrial jaraguaense (WEG).
A presença de Denise no palco significou, assim, a reconexão genealógica e cultural entre a história dos Purnhagen e a música contemporânea apresentada à comunidade de Jaraguazinho.
Encerrando a noite, às 21h, subiu ao palco a Super Banda K’necus, de Brochier (Rio Grande do Sul), referência regional na difusão da sonoridade germânica, regional sulista e brasileira. Sua presença se fundamenta na forte tradição musical dos municípios colonizados por alemães e pomeranos no Vale do Caí e no Vale do Taquari, onde o estilo bandinha permanece como núcleo cultural das festas comunitárias.
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A K’necus interpreta: – polkas, schottisch, e valsas de raiz germânica; temas regionais gaúchos adaptados à linguagem das bandinhas; músicas nacionais reconfiguradas no estilo teuto-brasileiro e repertório tradicional dos schützenvereine do Sul do Brasil.
Essa musicalidade, marcada por sopros vibrantes, acordeon e bandoneon, protagonista e arranjos festivos, reforça a continuidade cultural compartilhada entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A presença da banda no palco da Sociedade Independência representa a união entre diferentes núcleos germânicos do sul do país, fortalecendo o intercâmbio cultural entre comunidades teuto-brasileiras.
A noite musical sintetizou, assim, três pilares da identidade sonora regional: a memória familiar e pioneira (Purnhagen), a expressividade feminina contemporânea (Fridas de Taió), e a força tradicional das bandinhas germânicas (K’necus).
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4.Gastronomia Típica como Símbolo de Pertencimento
Foram servidos 420 pratos com carnes grelhadas e uma variedade de saladas, complementados pelo tradicional strudel de queijinho e amendoim. À meia-noite, o café colonial ofereceu cucas, heringsbrot, wustbrot e kochäse, reafirmando a culinária pomerana e alemã como marca de identidade, hospitalidade e memória comunitária.
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5.Jaraguazinho como Território Histórico e Cultural
A Sociedade Independência configura um núcleo histórico de sociabilidade e integração no microterritório de Jaraguazinho. Ao articular rituais, música, gastronomia e representações familiares, o espaço reafirma seu papel como guardião da colonização teuto-brasileira e da herança pomerana e húngara no Vale do Itapocu.
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Considerações Finais
A Festa de Tiro-Rei da Sociedade de Atiradores Independência reafirma o compromisso das famílias e da comunidade de Jaraguazinho com a salvaguarda do patrimônio imaterial herdado dos imigrantes e colonizadores, pomeranos, alemães e húngaros (donauschwaben).
A compreensão de Aloísio Magalhães é novamente essencial aqui: “um povo só preserva aquilo que reconhece como parte de si”. Jaraguá do Sul demonstra, através de suas festas, músicas, gastronomias e rituais comunitários, que reconhece na herança germânica um componente legítimo e profundo de sua identidade cultural.
Cada elemento — das músicas ao café colonial, do ritual do tiro-rei ao engajamento voluntário — revitaliza uma identidade construída ao longo de gerações. Trata-se de um ato de memória, pertencimento e resistência cultural, assegurando que as futuras gerações compreendam e valorizem o legado que molda a comunidade até hoje.
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Fonte
– Documento Convite para Festa de Rei e Rainha – Sociedade Independência, fornecido por Adriano Schmidt.
– MAGALHÃES, Aloísio. E Triunfo? A questão dos bens culturais no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/IPHAN, 1985.
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